TEM UM CADÁVER NA MINHA BANHEIRA!
HTML clipboardHTML clipboard Capítulo 1
Sou Fabio Ferreira e tem um cadáver no meu porta-malas.
O encontrei na banheira, há alguns minutos atrás.
É alto, gordo e calvo. Veste uma calça social preta e uma camisa branca, ou melhor, era branca, mas está tomada por seu sangue.
Não há documentos que o identifique, apenas um celular com uma lista de contatos muito pequena.
Eu estou nessa lista, mas o mais estranho é que não conheço o falecido...
... E nem sei como ele foi parar ali!
Na verdade, neste exato momento, eu pouco sei sobre qualquer coisa. Não consigo me recordar de minha jornada sobre a Terra. A última lembrança que tenho é de ter visto o corpo e o vermelho de seu sangue por todo canto do meu banheiro.
Agora, tem um cadáver em meu porta-malas... e uma bela garota adormece no banco ao lado do veículo do qual dirijo. Ela diz que se chama Amelie, que somos amigos e que mora no apartamento ao lado do meu, no número 118.
Também não me lembro dela, mas, se Amelie me emprestou o carro, então deve ser amiga, mesmo!
“Já chegamos?”, ela me diz, sonolenta.
“Eu nem sei para onde estamos indo!”, respondo, com as mãos trêmulas apoiadas ao volante. Decido, então, estacionar o Ford Maverick vermelho próximo a um posto de gasolina abandonado.
“Se quer se livrar do corpo, é melhor ser mais rápido”, diz Amelie, pela primeira vez, abrindo seus olhos. Ela boceja e sorri para mim. Beija-me o rosto e encosta a cabeça no meu ombro.
Ela alisa o meu ombro por alguns segundos... e para subitamente! Fitando bem no fundo de meus olhos, Amelie retira o cinto do meu banco, e o seu logo em seguida. Ela fecha o vidro com dificuldade e abandona o carro em silêncio, fugindo então do calor de meu corpo, abandonando minhas fantasias...
Eu também desço do automóvel e aproximo-me dela. Amelie traga a fumaça de um cigarro e a expele pela boca e pelo nariz.
“Você quer um?”, me pergunta.
“Não, obrigado.”, respondo, irritado com a fumaça.
“Está bem, então.” Amelie lança a bituca de cigarro no chão e esfrega a sola de seu sapato sobre ela, calmamente, como se estivesse amassando uma barata e pudesse ouvir seu casco sendo triturado, estralando embaixo de seu calcanhar. “Aonde vamos enterrá-lo?”
Dando de ombros, abro o porta-malas do Maverick. O corpo continua ali, intacto, sangrento, sem vida...
Pressinto um desmaio, mas percebo que não basta de um súbito enjôo.
Fecho o porta-malas novamente.
Transpiro muito, o suor escorre por minha pálida tez. Amelie aproxima-se de mim e acaricia o meu ombro, mais uma vez.
“Você não o conhece, mesmo?”, pergunta-me, entristecida.
“Não”, respondo, convicto. “Nunca o vi”.
“E eu, Fabio?”, os olhos azuis de Amelie se encharcam numa fração de segundo, “Também não me conhece?”
Relutante, decido lhe dizer a verdade.
“Não, Amelie. Eu... eu não a conheço, ou quem sabe, apenas tenha me esquecido de você.”
Transtornada, ela se afasta de mim. Engole o choro, seca as poucas lágrimas e acende outro cigarro.
“Vou tentar lhe ajudar, Fabio. Vou tentar lhe ajudar a se lembrar do que pode lhe ter acontecido.”
Amelie se senta no capô no carro e pede para que eu me sente ao seu lado. Nós dois, calados, observamos o céu alaranjado e o imponente e brilhante sol desvanecendo pouco a pouco no horizonte.
“O que você fez hoje?”, pergunta ela, quebrando o silêncio.
Esforço-me ao máximo, mas não me recordo de muita coisa.
“Acordei e tomei um copo de suco de laranja...”
“E o que mais?”
“Hum... Calcei meu par de tênis e fui até a sala assistir TV.”, penso por mais alguns instantes. “Não, não! Eu acordei, tomei um copo de suco de laranja, calcei meu par de tênis e desliguei a TV. Ela ficou ligada a noite toda.”
“E o que mais?”, repete Amelie.
Eu nunca me senti assim antes. Eu sei o que aconteceu, mas não na ordem certa. Vejo vários flashs de minhas ações cotidianas, mas são embaraçados, confusos...
“Eu peguei minha mochila e sai.”
“Saiu, assim... do nada? Desligou a TV, não escovou os dentes, tampouco trocou de roupa? Saiu... com tênis e pijama?”
“Não, é claro que não! Eu devo ter feito isso...”, digo a ela, enquanto, disfarçadamente, tento sentir o meu hálito com ajuda de minha mão. “Sim, eu escovei os dentes... E não precisei me trocar, pois dormi com esta roupa na noite anterior. Estava muito cansado e não tive ânimo de vestir meu pijama.”
“Hum.” Amelie expele um pouco de fumaça e sorri. “Muito bom, Fabio. Estamos indo bem. Agora me diga para onde estava indo.”
“Eu... eu acho que fui colocar o lixo para fora.”
“Então você acordou, escovou os dentes, tomou um copo de suco de laranja, calçou um par de tênis, desligou a TV, recolheu o lixo e, aí sim, deixou o apartamento.”
“Sim!”, exclamo, satisfeito comigo mesmo. “Recolhi as latas de cerveja da noite anterior, as coloquei numa sacola plástica e as desci.”
“Então você bebeu muito ontem? Quantas latas eram? Umas cinco, seis?”
“Não eram minhas. Eu não bebo... Eram... eram...”
O pôr-do-sol me ajuda e recordar dos detalhes, de uma certa fisionomia masculina, de um nome...
“Eram do Oscar, um colega da faculdade. Ele passou a noite comigo. Comemos pizza, assistimos a um filme de terror e ele bebeu um pouco.”
Amelie encara-me pensativa.
“Tem certeza de que Oscar não é o corpo que está dentro do porta-malas?”
“Mas é claro! Oscar não é velho e pançudo. É um moço até que bonitão.”
“Continue, Fabio, continue.”
“Ehr... Quando deixei o meu apartamento, a senhora... a senhora... a senhora Lúcia? Isso, a senhora Lúcia! Ela veio me dar um recado.”
“Que tipo de recado? Aposto que ela deve estar envolvida no assassinato, querido.”
“Não, ela é fraca, velha e mais míope do que uma fuinha! Não faz mal a uma mosca... Ela só veio me dizer que um tal de Doutor Azevedo havia me ligado ontem de tarde. Disse que era importante, que ele precisava me ver.”
“E como ela sabia disso?”
“Eu não estava em casa, provavelmente não tinha chegado do trabalho. Lúcia tem a chave do meu apartamento, foi buscar emprestado dois ovos para fazer um bolo, aí tocou o telefone... Na verdade, o apartamento é dela, eu pago aluguel a ela há uns... uns três anos! Devia saber disso, se diz ser minha amiga...”
Amelie muda de semblante subitamente. Joga a bituca de cigarro e lança-me um olhar indecifrável.
“Nós não perdemos tempo conversando sobre essas coisas inúteis, Fabinho... A gente só faz coisas... divertidas!”, disse-me, antes de beijar meus lábios por dois inesquecíveis segundos. “Enquanto cavamos, você me conta o resto.”
Capítulo 2
Amelie não perde sua feminilidade e formosura até mesmo quando está com a mão na massa, ou melhor, na pá! Cava com ira, sentindo o peso do artefato obstruir as camadas da terra. Sua sede em ver ali o corpo do desconhecido só aumenta a cada minuto. Ela parece se esforçar mais do que eu, até transpira mais do que minha pessoa. Os negros cabelos ondulados, presos a um coque, se agitam a cada movimento, e alguns fios insistem cair por seus olhos, por mais que ela os impeça constantemente.
“Então você não trabalhou hoje?”
“Não. E... infelizmente... não consigo... me lembrar... o por quê disso!”, respondo-lhe, ofegante.
Ela finca a lâmina na terra e se apóia no cabo da pá. Suspira, aliviada, por poder descansar um pouco. Sempre muito insistente, ela joga as madeixas teimosas para o lado, estas, se colam em sua tez pelo suor, provavelmente não mais lhe irritarão.
“Você tem certeza?”
Decido descansar um pouco, também.
“Sim. Só me lembro de estar no meu apartamento, há uma hora e meia atrás, fechando o meu guarda-roupa e... e...”
“Vamos, Fabio! Tente se lembrar!”
“Puta merda, Amelie! Tem um cadáver no meu guarda-roupa!”
Amelie, nervosa, se põe a cavar, com agressividade.
“É Oscar... Meu Deus, Amelie! É Oscar! Mataram o Oscar!”
Lembro-me, abruptamente, de estar com algo importante em um dos bolsos de minha calça. Afago o direito, percorro minha mão pelo esquerdo... Está ali! Dobrado em várias partes, um pedacinho de papel. Desdobro-o com cautela para não rasgá-lo, o suor de minhas mãos me atrapalham um pouco.
“O que tem aí?”, pergunta-me Amelie.
“É um número de telefone. Sei que é importante, eu pressinto isso... Mas não sei de quem é!”
Amelie limpa o suor da testa com o braço, abana um pouco o seu rosto e se dirige até o automóvel.
“Me dá uma mãozinha?”
Juntos, retiramos o corpo do falecido de dentro do porta-malas. Ele já começa a cheirar mal e parece que sua pele está desbotando. Ele é pesado, muito pesado! Pesa mais de cem quilos, certeza!
Ofegantes, conduzimos o corpo até a cova que lhe espera. Dando-lhe impulso, o morto é jogado ali dentro e, certamente, alguns ossos devem ter sido fraturados com o impacto.
Amelie começa a tampar a cova com a terra recém tirada. Ela está cansada, assustada, triste e, maiormente, muito preocupada.
Volto ao Maverick 77, abro o porta-luvas e pego o celular de Amelie. Disco aquele número anotado no papel, mas os créditos não são suficientes para completar a ligação. Arrisco, então, uma ligação a cobrar.
9090 679-1201
Saio do carro, com o celular no ouvido.
“Só está chamando!”, digo a Amelie. “Só chama, ninguém atende!”
Amelie não mais está cavando. Aflita, ela aponta para a cova... Aproximo-me dela, baixo os meus olhos e vejo uma pálida luz azul no meio da terra. Escuto, de longe, uma musiquinha chata, a mesma música deprimente do caminhão de gás.
“Fabio, para quem você está ligando?”, pergunta-me Amelie, a voz embargada.
Agora que os fragmentos do passado finalmente começam a se ajuntar, percebo que, por ora, o melhor é ocultar a verdade.
“Fabio, para quem você está ligando?”, ela pergunta mais uma vez.
“É o telefone do Doutor Azevedo. A Lúcia me passou pela manhã.”
“Fabio, o que você fez?”
“Eu...”
“Fabio, tem um morto em seu guarda-roupa e outro embaixo de nosso nariz! O que você fez?”
Lembrei da briga que tive com Oscar, que, quando bêbado, ficava super violento. Lembrei que, em um de seus ataques de loucura, na noite anterior, senti-me obrigado a asfixiá-lo com uma gravata. Arrependido, escondi o seu corpo no meu guarda-roupa.
Lembrei de ter deixado o meu apartamento pela manhã, de tentar fugir do que fiz, mas a senhora Lúcia atrapalhou os meus planos, dando-me o recado e o número do Doutor Azevedo.
Lembrei de encontrar o próprio Doutor Azevedo enquanto descia as escadas para o andar térreo, assim como lembrei de tê-lo convidado para tomar uma xícara de café em minha casa, já que ele queria conversar comigo.
Lembrei, e digo isso com pesar, de que Doutor Azevedo, meu psiquiatra, revelou-me que sofro de transtorno de personalidade, que sou bipolar.
Ele é um mentiroso!
Lembrei de que, por descuido meu, ele adentrou o meu quarto e descobriu o corpo...
Lembrei da cena do Doutor Azevedo tentando me impedir de matá-lo com a minha lâmina-de-barbear... Pobre Doutor Azevedo! Tanto lutou que acabou escorregando no banheiro molhado e caiu de cabeça na banheira de porcelana.
Por fim, lembrei de que, antes de desfalecer na banheira, Doutor Azevedo me empurrou com extrema força, fazendo com que eu viesse a cair desconfortavelmente no ladrilho úmido.
E então, lembrei-me que acordei sem lembrar de nada... e que pedi ajuda para a primeira pessoa que me pareceu: Amelie.
“Fabio, o que você fez?”, berrou Amelie.
Nada disse. Minha atenção estava direcionada a terra, que se mexia sutilmente...
“Fabio, você matou este homem? Por quê nunca me disse nada sobre este homem?”
“Nós não perdemos tempo conversando sobre coisas inúteis, Amelinha... A gente só faz coisas... divertidas!”, disse, com um sorriso pronto a ser formado em meus lábios.
E então, como nos filmes de terror, uma mão potente, branca e com poucas unhas ergueu-se da terra, segurando um celular velho, daqueles que chamados de “tijolão”.
“Será que o enterrei ainda vivo?”, pensei comigo mesmo.
E, enquanto tentava chegar numa conclusão sensata, outra mão surgiu do solo e, logo, Doutor Azevedo, sangrando e cheirando à carne podre, renasceu das trevas infinitas...
Eu me lembrei...
... Me lembrei de que tinha pernas e que precisaria delas para correr!
Mas antes, tratei de pegar uma pá, caso fosse preciso exterminar algum zumbi.
Corri, corri e corri. Olhei para trás, Doutor Azevedo, cambaleando, abraçou a minha namorada, mas, quem sabe, poderia estar devorando-a!
Como pude me esquecer de Amelie? Minha bela Amelie? Eu tinha de voltar para lá!
“Você consegue, Fabio!”, pensei. “Você consegue!”
Segurei o cabo da pá com as duas mãos; se eu colocasse ali mais um pouco de força, certamente o mesmo se quebraria em duas partes...
“Você consegue!”
Epílogo
Sou Fabio Ferreira e estou dirigindo um Ford Maverick 77 a toda velocidade, mesmo sem saber o porquê.
Minha cabeça dói, meus braços estão arranhados... Há sangue espalhado por todo o estofamento do carro, há sangue em minhas mãos, há sangue em minha roupa... E o pior de tudo, eu não me lembro do que aconteceu.
Só sei que meu nome é Fabio Ferreira...
HTML clipboard ... E têm dois cadáveres em meu porta-malas! (Davi Mello)