sexta-feira, 6 de novembro de 2009

CONTO

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COISA DE CRIANÇA

Parte I – O Anjo da morte

Dizem que quando estamos próximos da morte a nossa vida passa diante aos nossos olhos como rápidos flashes de um filme. Aconteceu algo parecido comigo, mas o que vi não foram os momentos mais felizes de minha curta jornada na Terra, mas sim, rápidas cenas do lugar no qual seria conduzido... E posso dizer-lhes que a visão que tive não foi de anjos e arcanjos voando entre as nuvens, mas sim, demônios largados em um abismo negro, que logo fora iluminado pelas labaredas do inferno.

Tudo começou naquela manhã de agosto, mais precisamente, a manhã de meu aniversário. Sim, eu tive a sorte de ser levado desta para a “melhor” bem no dia em que completaria dezoito anos. Oh!, como eu sonhava com este momento! Finalmente poderia dirigir pelas cidades, tirando suspiros das garotas, sendo o centro das atenções por onde quer que eu passasse... Mas o que sucedeu não estava em meus planos; ao invés de receber as visitas de parentes e amigos, minha única companhia foi a morte, em carne e osso, ou espírito, não sei dizer ao certo.

Levantei com um sorriso largo em meu rosto, o que significava meu contentamento, a saúde de ser jovem, o prazer de estar virando um adulto. Meus pais entraram pela porta de meu quarto, Julie, minha irmã, veio logo atrás deles carregando um embrulho grande em seus finos bracinhos. Quão encantadora era minha irmã! Estava tão bonita naquele dia! Seus traços meigos, seu belo sorriso infantil... as sardas espalhadas em seu rosto inocente, os olhinhos negros brilhando, encarando-me.

- Feliz aniversário! – disseram em um coro. E então, jogaram-se em cima de mim, me encheram de beijos e abraços.

- Por que não abre este presente? – perguntou o meu pai, que não conseguia disfarçar o entusiasmo.

Julie me entregou a caixa. Rasguei o embrulho colorido com rapidez e logo, a imagem de um luxuoso terno negro fora revelada.

- Para o nosso futuro advogado. – disse mamãe, sorridente.

Agradeci, a beijei e senti as lágrimas dela tocar em meus ombros. Segurei as minhas emoções, afinal, a partir daquele dia já não era um adolescente bobo, havia me tornado um homem!

Papai balançou o bolso de sua calça jeans. Ouvi algo tilintando ali dentro; meu sorriso aumentou!

- Oh, meu amado pai! Não era preciso! – exclamei, surpreso. Meu pai havia me presenteado com uma chave, a mesma do automóvel estacionado à frente de nossa casa, que pude ver pela janela de meu cômodo.

E Julie, em sua inocência, retirou de seu vestido um papel dobrado em dezenas de partes. O desdobrei e pude ver um estranho desenho, cheio de traços e curvas, uma casa, uma garota feita com aqueles famosos “pauzinhos” e uma outra pessoa, feita do mesmo jeito.

- Este é você! – disse ela, apontando para o individuo desenhado ao lado da menina.

Meus pais mudaram o semblante repentinamente. A minha imagem feita por Julie estava com a cabeça desgrudada do pescoço, e ali, havia sangue, muito sangue.

- Por que fez isso, filhinha? – perguntou minha mãe retirando o desenho de minhas mãos.

- Mãe, é só um desenho. – disse eu, ao ver que Julie ficara chateada. – Ela é pequena, sei que a intenção foi a das melhores.

- Está certo, querida. – falou o meu pai alisando o ombro de sua esposa. – Não se preocupe com isso.

Pude escutar o que ele sussurrou aos ouvidos de minha mãe, depois:

- Julie tem apenas quatro anos. Não sabe desenhar direito. No certo, aquela mancha vermelha abaixo da cabeça de Julian é apenas uma gravata.

Mamãe assentiu, mas eu ainda via a tristeza em seus olhos amendoados. Estaria ela prevendo algo ruim?

- Susan te ligou, há pouco. – contou o meu pai antes de sair do meu quarto. – Mandou eu lhe avisar que precisa falar contigo. É importante.

Susan era a minha ex-namorada. Uma bela moça, entretanto, possuidora de um gênio muito forte, por isso tínhamos muitas brigas, porém nos amávamos loucamente. O rompimento do nosso relacionamento de quase um ano ainda era um mistério! Há mais ou menos um mês atrás, Susan simplesmente disse que não podíamos ficar juntos, sem dar nenhuma explicação concreta. Continuamos nos falamos, mas as coisas não eram como antes, por este motivo, achei estranho ela ter me ligado, afinal, talvez ela já estivesse comprometida novamente.

Assim que todos me deixaram a sós, decidi telefonar para Susan. Confesso que senti certa preocupação.

- Estou indo para aí. – disse ela, sem mesmo dizer “alô”, ou “meus parabéns!”.

Fiquei intrigado durante algum tempo, mas acabei esquecendo que Susan viria, pois os telefonemas para minha pessoa eram muitos.

Desci para almoçar. Minha mãe terminava de fazer a massa do meu bolo e meu pai regava algumas plantas da cozinha. Julie, como sempre, desenhava no canto da sala, sempre sorrindo.

- Olhe, Julian. – disse puxando a manga de meu casaco assim que passei por ela. – Veja se gosta deste.

Ergui minha irmã no alto fingindo que a mesma era um avião e juntos nos divertimos durante alguns minutos. Quando a “aterrissei”, ela me mostrou sua estranha ilustração. Mais uma vez eu estava ali, mas agora, ao lado de uma pequena cruz.

- Julie... – comecei dizendo, um pouco preocupado. – Por que desenha estas coisas?

- O anjo da vida me pediu. – respondeu, soturna. E saiu cantarolando atrás de uma borboleta que perambulava pela sala.

A campainha tocou com insistência, acompanhando a minha forte pulsação.

Era Susan.

- Eu sinto muito! – exclamou ela, com os olhos marejados, jogando-se em meus braços. – Eu realmente não quero fazer isso...

- O que houve? – indaguei, levando-a até o meu quarto a fim de conversarmos melhor.

Ela sentou em minha cama, limpou as lágrimas e afagou as minhas mãos, deixando-me arrepiado.

- Cometemos um erro. – disse ela.

- Acalme-se. – implorei, brincando com suas madeixas negras. – Por favor, conte-me o que está havendo.

- Julian... – o seu pálido e fantástico rosto agora assumira uma expressão indecifrável. – Eu sou um anjo da morte.

- O que está dizendo?

- Lembra-se de como nos conhecemos? – perguntou, ainda emocionada.

- Como eu esqueceria? – disse eu, sorrindo. – Você quase me matou...

- E foi por isso que tive de entrar em sua vida. – revelou, tristemente. – Eu precisava te matar!

Não sabia o que dizer. Será que Susan ficara louca após o término de nosso namoro?

- Eu precisei roubar um corpo que abrigasse o meu espírito.

- Então quem realmente é você? – quis saber, fingindo estar acreditando.

- Este é o cadáver de Margareth Thompson... Eu a afoguei, há onze meses atrás...

- Quando começamos a namorar. – dissemos em uníssono.

Nos encaramos durante um bom tempo.

- E se eu dissesse que acredito em você, - eu disse, quebrando o silêncio. – como provaria?

Ela procurava algo em meu quarto. Sorriu ao encontrar um vaso de rosas vermelhas que se localizava em um canto. Aproximou-se deste, estendeu a sua mão sobre ele e, inexplicavelmente, as flores começaram a adquirir uma cor mais escura. Por fim, murcharam e secaram-se completamente.

- Oh, meu Deus! – vociferei, surpreso.

- Agora acredita? – perguntou ela, dirigindo-se a mim lentamente.

- Saia daqui! – exigi, me espremendo entre os lençóis. – Saia!

- Não posso deixar o seu lar sem levá-lo comigo! – exclamou, melancólica. – Você cometeu um grave erro e precisa pagar por isso, mesmo parte de mim querendo que nada de mal aconteça...

- V-você... Não pode estar... falando sério! – gaguejei, amedrontado.

- Eu dirigia pela estrada e você voltava da escola...

- Cale-se! – gritei, tampando os ouvidos.

- Eu fingi perder o freio enquanto você atravessava a rua, despreocupado. – ela já estava bem próxima de mim. – Mas não pude completar o meu serviço! Eu me encantei com seu rosto jovial... Um ser tão belo como ti não devia morrer tão cedo...

- Eu não quero ouvir! – as lágrimas escorriam pelo meu rosto.

- Acabamos saindo para jantar, no mesmo dia. Uma semana depois, estávamos compromissados... – ela sorriu, provavelmente relembrando os nossos bons momentos juntos. – Mas fomos tolos! Eu devia ter lhe matado antes que você fizesse isso comigo... – Susan retirou de seu vestido preto um papel dobrado em vários pedaços e jogou para mim.

O meu olhar já falava por mim mesmo; fiquei surpreso! Um exame médico constatava a gravidez de Susan!

- Você não entende? – ela começou a chorar novamente. – Eu não trago a vida, só a morte!

- E o que quer que eu faça? – indaguei. Minha respiração estava fraca, pressentia um desmaio. Isso não podia estar acontecendo!

- Não posso matar a criança. Preciso ficar aqui com ela, mas necessito levar você. Uma troca justa. – Susan estendeu a sua mão, estava trêmula. – Mesmo porquê, já estamos condenados...

- Você está maluca! – relutei.

E levantei-me rapidamente, abri a porta de meu quarto e desci as escadas em uma velocidade incrível. Escutei a minha mãe me fazendo inúmeras perguntas, mas não quis responder nenhuma delas. Peguei a chave de meu veículo e saí daquele lugar terrível.

Meus pais se entreolharam, sem entender o que estava acontecendo.

- Papai, mamãe... – disse Julie, deprimida. – Julian vai voltar... Eu prometo!

Não me importava com os faróis, tampouco com as pessoas que passeavam pelas ruas. Dirigi feito um louco, buzinando a cada instante.

- Adeus, Julian. – disse Susan, surgindo ao meu lado subitamente.

Em uma fração de segundo, tudo se apagou.

Parte II – O acidente

A estrada estava inundada de curiosos, policiais e caminhões de resgate. Meu pai saiu de seu Picasso preto carregando Julie no colo. Logo depois, minha mãe apareceu, segurando um lenço branco em sua face, chorava muito.

- Foi um caminhão desgovernado que fez isso. – disse um dos policiais. – Eu sinto muito, senhor e senhora Stewart. – ele acariciou o rosto de Julie, depois exigiu que todos se afastassem.

O meu carro novo estava completamente destruído. Quem viu aquela cena, sabia que era impossível alguém sair daquela situação com vida.

- Ele foi decapitado. – revelou um bombeiro. – Morreu na hora.

- Houve outras vítimas? – perguntou o chefe da polícia a ele.

- Não. – respondeu o bombeiro, limpando a mão coberta por meu sangue. – Julian Stewart estava sozinho.

Aquele terno que ganhei no meu aniversário foi o que vesti no meu enterro.

Parte III – O “inferno”

E agora estou aqui... O mais incrível é que eu não sinto o calor, só o cheiro forte de enxofre.

- Julian.

Eu não quis olhar para o ser que me chamava. Senti medo.

- Tenho um trato a fazer com você. – era aquela voz fina e feminina novamente.

Continuei calado.

- Não tenha medo. – disse outra vez. – Você não está no inferno, ainda não é a hora.

- Onde estou, então? – perguntei, sem olhar para aquela que conversava comigo.

- Este é o limbo... O mundo das almas que têm uma segunda chance. Não se preocupe com o fogo, ele não pode feri-lo enquanto você não ser julgado.

- O que propõe? – minha voz estava fraca.

- Você pode continuar aqui e ser um anjo da morte. Viverá para sempre e não será julgado por seus atos...

- E a outra opção?

- Ou pode acordar deste pesadelo, sendo um mero mortal. Isso não significa que os seus pecados sejam esquecidos...

- E Susan? – quis saber.

- Ela fracassou em sua missão. Não foi ela que fez isso com você. – e então, aquela pessoa tocou o meu queixo e ergueu minha cabeça. – Fui eu!

Não podia acreditar! À minha frente estava Julie, minha querida irmã. Então ela era o anjo da vida?

- Este é o nosso segredo. – disse ela. – Você não se lembrará disso, não se preocupe... Agora, faça a sua escolha...

Parte IV – Um recomeço

Simplesmente apareci andando, prestes a atravessar a rua. Senti uma leve sensação de dèjà-vu... O farol piscava em verde, o que significava que eu poderia seguir.

Um carro parou de frente a mim, quase me atropelando. Olhei para o vidro do mesmo e pude ver quem dirigia aquela Mercedes prateada; era a mulher mais bonita que eu já tinha visto. Seus cabelos negros e sua pele pálida me deixaram perplexo.

Ela desceu de seu veículo, preocupada.

- Aconteceu alguma coisa? – perguntou, aflita.

- Eu estou bem. – respondi, sorrindo.

- Nós já não nos vimos antes?

Pensei durante um tempo. Não conseguia me lembrar.

- Não... Mas poderíamos nos conhecer melhor. – eu pisquei, maliciosamente. – O que acha de jantarmos hoje à noite?

- Se isso lhe fará sentir melhor, eu aceito! – exclamou, rapidamente.

- A propósito... – entendi minha mão a ela. – Sou Julian.

- Meu nome é Margareth. – ela sorriu, retribuindo o cumprimento. – Margareth Thompson.

(Davi Mello)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Divulgação - Tassinha

A cantora Tássia Holsback, mais conhecida como Tassinha, é dona de uma voz singular e um estilo único. Além de cantar e tocar violão em seus vídeos, nos encanta, fazendo com que muitos virem dependentes de seu talento.
Em seu canal do youtube, tem alguns vídeos como "Forever and After", uma composição própria com mais de 60 mil visualizações, como também o sucesso de Marisa Monte, "Até Parece".
Vale a pena conferir seu trabalho, veja Forever and After:



Para quem quiser saber mais, visite a sua comunidade do Orkut, clicando aqui.

Agradecimento: Milene Naka

terça-feira, 29 de setembro de 2009

CONTO

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JUSTIÇA E INDECÊNCIA

Parte I – Dores, ou revelações finais

Kevin não falava com sua mãe há cinco anos, e, escrever uma carta a ela, ainda mais esta sendo de despedida, não estava sendo nada fácil. A última vez que conversara com sua mãe foi para dar-lhe a triste notícia de que contraíra o vírus da AIDS. Ela entrara em pânico e chorou por longas semanas, mas não demonstrou preocupação diretamente ao filho. Ainda com o orgulho ferido, continuava não aceitando a opção sexual de seu primogênito.

Os papeis espalhados pelo chão denunciavam as várias e frustradas tentativas. Antes que pudesse iniciar um novo esboço, Kevin assustou-se com um barulho. Ricardo deveria ter chegado e ele não gostaria que visse aquela cena. Rapidamente, o jovem ajuntou todos os papeis de uma só vez e colocou-os debaixo de seu travesseiro. Deitou-se em seu leito e aguardou por seu companheiro.

Ricardo adentrou o cômodo reclamando de seu serviço e do trânsito. Não cumprimentou o noivo, tampouco lhe perguntou se estava tudo bem consigo. Enquanto desabotoava a camisa, em um silêncio repentino, dirigiu sua atenção a Kevin que, com os olhos marejados, o encarava com desdém.

- Está tudo bem? – perguntou ele.

- Quem é ele, Ri? – indagou o aidético. – Vamos, seu covarde! Diga-me!

- Do que está falando, querido? Eu...

- Eu vou voltar para casa, Ricardo! – interpelou Kevin. – Não está dando mais certo. Eu não lhe faço feliz e você também não mais me alegra. Está sempre reclamando de sua vida inútil e assim, deixa-me de lado.

- Você está enlouquecendo! – exclamou Ricardo. – É isso que está acontecendo com você! – gritou, antes de deixar o quarto.

- Merda! – disse Kevin a si mesmo. – Merda, merda, merda!

O jovem levantou-se de sua cama, com dificuldade, e dirigiu-se até a janela do apartamento, sempre fechada, impedindo a passagem da luz solar; por este motivo, sua pele ficara seca e escamosa, conseqüentemente, tornou-se mais pálida, dando-lhe um aspecto ainda mais sofrido. Parecia que ele definhava dia após dia. Outrora musculoso, Kevin se tornara em uma pessoa frágil e cadavérica. Sua aparência não era das melhores. Quem o visse naquela situação, certamente lhe daria uns quarenta anos. E pensar que, há seis anos atrás, antes de ter descoberto a doença, trabalhava com sua beleza, era um modelo requisitado por diversas revistas e empresas.

Mesmo fraco e debilitado, Kevin conseguiu forças para abrir a janela. Os raios solares entraram em seu quarto, beijando o chão e também a sua pele. Parecia que os cumprimentavam, como se estivessem felizes em poder revê-los.

Por um instante, ao olhar para baixo, Kevin pensou em se jogar, porém, não era a primeira vez que tentaria suicídio.

- O que está fazendo aí? – perguntou Ricardo, surgindo de supetão. – Você está maluco?

Kevin aproximou-se do companheiro e se jogou em seu peito, abraçando-o ternamente. Soluçando, não conseguia dizer uma só palavra. Devido a isso, tentava demonstrar seus sentimentos por intermédio das carícias, do calor humano.

Seus lábios foram ao encontro aos dele. Beijaram-se e sentiam, ambos, o palpitar de seus corações.

- Eu... eu... sinto não ser o que você queria! – balbuciou para Ricardo.

- Kevin... Kevin... – disse o empresário, tentando retirar as mãos do aidético de si. – Kevin, por favor, afaste-se! – pediu, empurrando-o com repulsa.

- Eu não quero mais saber com quem está. – revelou Kevin. – Eu só queria saber o porquê!

- Não é uma boa hora para conversarmos. – disse Ricardo, ríspido. – Preciso tomar um banho para ir ao julgamento.

- Eu espero que seja considerado culpado, meu querido. – proferiu Kevin, trincando os dentes. – Ah, eu quero!

- Eles não possuem provas, não há o que se preocupar.

- Eu não seria tão convincente... – disse Kevin, enxugando suas lágrimas. – Quando passar por esta porta, prometa-me que dirá com quem anda saindo.

- Se isso lhe deixa feliz... – Ricardo, pronto a deixá-lo, suspirou fundo e, finalmente, revelou: - Não estou saindo com “ele”, mas sim, com “ela”!

- O quê? – gritou Kevin, incrédulo. – Por quê? Porque sou um pobre aidético? – o doente tateou o colchão e, assim que encontrou a faca que havia escondido na beirada da cama, mirou-a na direção de Ricardo. – É por isso? É? Vamos, seu puto! Responda!

Num impulso, Ricardo só conseguiu pensar em uma coisa... Sem maneirar em suas forças, deu-lhe um tapa no rosto, deixando um vergão rosado, a marca de seus dedos estampada na face macilenta de Kevin.

- Eu vou chamar um médico. – disse Ricardo, os olhos marejados.

- Faça isso... e eu cortarei os meus pulsos! – ameaçou Kevin, posicionando o corte da faca em seu braço esquerdo.

- Faça o que quiser, seu lunático doente!

Ricardo saiu batendo a porta com ignorância. Kevin, ainda aos prantos, brincou com a ponta de faca, tocando-a por todo o rosto, e depois, pelo peito. Tentou tomar coragem e, ao fim, terminar com tudo aquilo de vez, todavia, lembrou-se da carta que ficaria incompleta. Sua mãe jamais a leria, jamais saberia as coisas que era de seu intuito lhes dizer.

Deixando a faca de lado, Kevin pegou as folhas debaixo do travesseiro e pôs-se a escrever.

Parte II – Conto de fadas, ou o início de tudo

Eles se conheceram na universidade. Enquanto Kevin fazia Biologia pelo período matutino, Ricardo terminava sua pós-graduação em Administração durante a noite. Jamais se encontrariam, a não ser que o destino lhes desse uma mãozinha.

Foi em novembro, época das provas finais. Kevin participava de um grupo de estudos biológicos da faculdade e, já que era o melhor da turma, naquele dia ficara até mais tarde para ajudar os colegas da sala, a pedido do coordenador de seu curso. Pela noite, teria uma sessão de fotos para um catálogo de roupas de uma famosa grife internacional, mas teve de cancelar este compromisso vendo que não daria tempo.

Ao deixar a universidade, no caminho até ao ponto de ônibus, presenciou um acidente envolvendo dois carros e uma moto. O motoqueiro, jazido moribundo no chão, clamava por socorro, enquanto os motoristas dos automóveis discutiam e xingavam um ao outro. Pelo o que Kevin pôde perceber, o dono do Pálio preto fechou o outro veículo, um Meriva 0km, e, por conseguinte, foi acertado bruscamente, já que o motorista não conseguiu frear a tempo. Com isso, o motoqueiro que vinha logo atrás em alta velocidade também não conseguiu frear, batendo com sua moto na traseira do Meriva, vindo a ser jogado a três metros dali. Ao certo, morreria em pouco tempo. Parecia ter quebrado várias costelas, sem contar as fraturas expostas nas duas pernas e em um dos braços, e também, o visor do capacete, destruído, acabou ficando preso em seus olhos

O acidente, como de praxe, virou motivo de atração. Kevin, curioso, permaneceu ali por alguns minutos, ansioso por um desfecho bom. Foi aí que se juntou à multidão um rapaz alto usando uma baby-look abóbora e uma calça jeans preta. Tocou o ombro de Kevin e perguntou o que tinha acontecido. O estudante de Biologia deu de ombros, e, sorrindo, disse ter chegado atrasado para o espetáculo.

Conversaram por algum tempo, sobre seus cursos e trabalhos. O sonho de Ricardo era trabalhar em uma empresa multinacional e ser reconhecido por seus feitos, e, segundo ele, estava quase alcançando isso. Um amigo de seu pai lhe assegurou uma vaga numa empresa de remédios assim que ele terminasse a pós-graduação. Ricardo estava muito confiante e sabia que, uma vez ali, sua alta capacidade lhe garantiria cargos importantes. Kevin contou como era seu trabalho como modelo e de como era freqüentemente assediado, por homens e mulheres. Ricardo não conseguiu disfarçar um interesse por ele, bem como Kevin pelo novo amigo. Assumiram a homossexualidade um ao outro e trocaram experiências de como lidavam com isso, desde o começo das descobertas, até o dia em que contaram tudo aos seus pais.

O papo estava tão interessante que os dois se afastaram da multidão e sentaram-se na calçada para melhor se entenderem.

- Acho que você tem um trabalho a apresentar, não é mesmo? – perguntou Kevin.

- Não é nada tão importante. – respondeu Ricardo, sorridente. – Podemos conversar mais um pouco. Você sabe como é, sou uma pessoa bem ocupada e não tenho muitos amigos. Às vezes, participar de um bom papo me faz sentir... Mais vivo!

- Sinto-me assim, também. – confessou Kevin. – Ainda mais porque mal consigo conversar com meus pais, quem dirá com meus amigos. Desde que revelei minha sexualidade a eles, as coisas mudaram. É como se eu nem existisse mais!

- O homem é um animal tolo e preconceituoso. Não se importe com isso...

- Eu não ligo! – exclamou Kevin. – Mas me diz.. um filme!

- Edward Mãos de Tesouras! – respondeu Ricardo. – Eu ainda choro quando o pobre Edward diz que não pode abraçar sua amada devido à periculosidade de suas tesouras, quando a mesma lhe implora para ele o fazer.

Kevin sorriu.

- Uma música? – quis saber Ricardo.

- A voz da Enya me fascina... Acho que gosto de todas as canções dela!

- Não vai me dizer que seu livro favorito também é O Senhor dos Anéis! – exclamou Ricardo, entusiasmado.

- Eu só vi o filme. – queixou-se Kevin. – Mas gosto d’O Diário de Anne Frank, lhe serve?

- É... Acho que temos gostos parecidos. – comentou Ricardo.

E trocaram alguns olhares, mal podendo segurar a vontade de se abraçarem.

- A gente podia se encontrar mais vezes, não é mesmo?

- Sábado, aqui mesmo. – disse Ricardo. – Será no mesmo lugar em que nos conhecemos... Agora, acho melhor eu ir.

- Mas você já perdeu a apresentação do trabalho, mesmo!

Ricardo sorriu, não por descobrir que, pela primeira vez, alguém estava gostando de sua presença, mas sim, porque, ao seu ver, tinha conseguido muito mais que um simples amigo. Com esta conclusão, sem pedir licença, beijou Kevin nos lábios. Não se desculpou, ou saiu correndo. Continuou ali, conversando e se divertindo.

Quando Kevin revelou aos seus pais que estava namorando e que iria morar com seu companheiro, não foi preciso dizer duas vezes para que sua mãe aprontasse suas malas e o pusesse para fora de casa. Durante alguns dias, Kevin dormiu na casa da tia que, embora não gostasse da decisão do sobrinho, sabia que o certo era acolhê-lo naquele momento.

Em dois anos, quando Kevin se formou e Ricardo já conseguira o cargo máximo na empresa, uma notícia veio à tona como uma bomba atômica. Kevin havia contraído o vírus da AIDS, porém, segundos aos exames, não ocorrera o mesmo com Ricardo.

Os dois passaram por um momento difícil. Amavam-se e, só de pensar que a morte poderia lhes separar... Enfim, Ricardo fez de tudo para que seu noivo se sentisse feliz e passasse os últimos anos da melhor forma possível.

Quando completaram seis anos juntos, Kevin lhe fez um pedido especial, queria criar uma família ao lado de Ricardo. Seu desejo era ter um filho!

Ricardo tinha medo de adotar uma criança e esta se sentir mal com isso no futuro, e então, tomou uma decisão diferente: pagou para a sua empregada Luíza engravidar-se dele. Isso foi feito às escondidas, já que o empresário queria fazer uma surpresa ao Kevin.

Com o passar dos meses, o doente percebeu que a barriga de Luíza adquirira uma forma peculiar. Não era a primeira vez que a empregada estaria grávida enquanto trabalhava ali, por este motivo, Kevin descobriu rapidamente.

Em julho, em seu aniversário, Kevin ficou sabendo da verdade... Em dois meses, Luíza daria à luz a um menino, um filho, também de Ricardo! Foi um dos momentos mais especiais para o casal. Kevin saiu correndo por todos os andares do prédio, gritando “Eu vou ser pai! Eu vou ser pai!”.

Contudo, quando as coisas pareciam estar perfeitas, Kevin foi ficando ainda mais fraco. Tudo se piorou quando ele viu um bilhete comprometedor dentro da carteira de seu noivo. Suspeitando de uma traição, Kevin foi se acabando. Deixava de comer e não saía mais do quarto. Não queria conversar com ninguém e percebeu que Ricardo lhe tratava de um modo diferente...

Para complicar ainda mais a situação, assim que Paulo nasceu, Luíza apareceu morta na sacada do apartamento. Ao chamar a polícia, Kevin foi apontado como o principal suspeito, já que sempre ficava trancafiado em sua casa e, no dia do ocorrido, Ricardo estava fazendo hora extra no serviço.

A família de Luíza prestou queixas, dizendo que a empregada era freqüentemente ameaçada pelo casal, já que, semanas antes de parir, ela disse a eles que era de sua vontade ficar com a criança. Por outro lado, Ricardo insistiu em dizer que isso aconteceu, mas que Luíza quis barganhar o filho, pedindo-lhe uma quantia extremamente alta por ele, ou então, o pegaria para si.

Ricardo sabia que Kevin jamais cometeria um assassinato e, por este motivo, pagou advogados que o inocentaram. De qualquer forma, alguém teria de ser punido, e a culpa voltou para ele!

Parte III – Uma carta para a mamãe, ou o suicídio

“Querida mamãe”, começava a carta. “Sei que não nos falamos muito nos últimos anos, mas gostaria de lhe pedir desculpa por tudo. Não era de meu intento destruir nossa família, eu só queria me sentir feliz.”

Kevin parou para beber um pouco de água e, com a caneta na mão, continuou:

“Se você está lendo essa carta, então já sabe que morri. Não queria que você descobrisse tudo dessa forma, mas infelizmente terá de ser assim. Eu não tive forças, enquanto vivo, de olhar em seus olhos e dizer o quanto sentia por ter deixado você e o papai. Eu acho que me iludi, eu acho que não sabia o que realmente queria.

Os últimos meses foram muito difíceis para mim e meu noivo, ou melhor, a partir de hoje, ex- noivo. Sei que a tia deve ter lhe contado que nós dois íamos ter um filho... Pois bem, mal o carreguei em meus braços e o Paulinho já me foi tirado. Eu não sei onde ele está, mas quero que continue assim. Ele se parece muito com o Ricardo, e, ficar com o pobre Paulo poderia me deixar ainda mais doente.

Sei que não fui o filho que você sempre quis ter, mas a minha intenção em ter um filho era justamente para provar que eu sou capaz de ser um pai tão bom quanto o meu foi, ou tão amoroso quanto a você. Eu espero que, assim que as coisas se normalizarem, você possa cuidar de meu filho dessa maneira. Prometa-me que o mimará muito...

Eu queria lhe contar todos os meus segredos, todas as coisas que fiz. É por isso que estou escrevendo essa carta, mas, infelizmente, não posso, não devo, porque você vai me odiar ainda mais. Quem sabe um dia você fique sabendo de tudo por terceiros, já que sou um reles covarde.

Amo muito vocês,

Kevin Medeiros Júnior”.

Quando Kevin finalizou a carta, começou a escrever mais uma, desta vez, destinada a Ricardo. Assim que também a terminou, deixou-a na mesa da sala, dentro de um envelope. Ao voltar para o seu quarto, procurou pelo vidro de seus remédios e decidiu que ingeriria uma dose cavalar de pílulas. Deitou-se, sorridente, aguardando a morte chegar...

Parte IV – O pássaro precisa voar, ou o desfecho

O julgamento foi adiado, mais uma vez, porém, parece que finalmente as coisas estavam melhorando para Ricardo, já que os legistas não descartaram uma hipótese de que Luíza poderia ter cometido suicídio devido a uma série de problemas que estava enfrentando.

Quando regressou a seu apartamento, exausto e muito nervoso, Ricardo chamou por Kevin, mas este não lhe respondeu. Dando de ombros, foi até a cozinha preparar alguma coisa para comer, mas no caminho, sua atenção foi direcionada a um envelope carmesim sobre a mesa. Nele, grafado em letras trêmulas, estava seu nome.

Ao romper o lacre do envelope, Ricardo começou a ler a carta.

“Querido Ricardo,

Você sabe que dia é hoje? Hoje se completam oito anos que nós estamos juntos... Mas é claro que você se esqueceu. Você nunca se importou com as datas, a não ser àquelas ligadas a sua empresinha de bosta.

Meu querido e amado Ricardo, só quero que saiba que, neste exato momento, estou morto. É! O aidético depressivo bateu as botas, ou melhor, cometeu suicídio. Ontem você me disse que nem para isso eu prestava, pois bem, agora você sabe que eu era capaz e só não o fazia antes porque queria viver por você...

Sabendo eu que já estou no inferno, está na hora de você saber alguns segredinhos que quis esconder durante este tempo todo...

Primeiro, você é uma merda na cama.

Segundo, fui eu mesmo que destruí seus slides importantíssimos para aquela reunião, e não o Fofo, como você imaginava. Coitado! Nosso cão foi para a carrocinha por causa de uma simples mentirinha minha...

E terceiro, mas não menos importante, eu mesmo matei a Luíza! Sim, o aidético infeliz é um assassino! Ela estava regando as suas malditas plantinhas na sacada e eu ofereci-lhe um chá. Você se lembra daqueles seus remédios fortíssimos que você trouxe uma vez e que desapareceram? Pois bem, a maioria foi parar na xícara da pobre Luíza... E pensar que fiz isso por você, mais uma vez! Por você e por nosso filho! Sem a Luíza, ninguém mais nos impediria de formarmos uma família feliz... O Paulinho poderia estar conosco neste exato momento e não precisaríamos pagar mais nada àquela empregadinha. Mas, como sempre, você estragou tudo e chamou a polícia, sem eu poder lhe contar o que tinha acontecido.

Como você pode ver, eu sou capaz de fazer muitas coisas, meu amor.

Agora, por que não se dirige até ao nosso quarto para ver uma cena imperdível?”.

Com o término da leitura, Ricardo destruiu a mesa de vidro com um empurrão e assim foi destruindo tudo o que via pela frente até chegar ao quarto de Kevin.

A janela estava novamente fechada e, como já anoitecia, o recinto estava escuro. Ricardo sentou-se no leito de Kevin e acendeu o abajur. Beijou-o na testa e, sorrindo, acariciou o seu rosto sofrido. Ele ainda respirava...

Viu que na cômoda havia vários frascos de remédios vazios, e copos d’água. Supôs que os mesmos estivessem começando a fazer efeito no estômago do noivo. Ele o chacoalhou, mas Kevin apenas choramingou.

- Isso não devia acabar assim, Kevin... Você tem consciência do que fez?

Ricardo percorreu seus dedos pelo corpo do moribundo, desamassou e abotoou o seu pijama.

- Descanse em paz! – exclamou Ricardo, antes de sair, voltando a deixar o cômodo em plena escuridão.

Kevin, que até então parecia estar sofrendo com os efeitos dos remédios, tateou o colchão e pegou a faca que estava ali escondida...

Quando ia deixar sua cama, bem no momento em que acendeu a luz do abajur, deparou-se com Ricardo, que segurava um travesseiro com as duas mãos. Seus olhos faiscavam de ódio e brilharam intensamente assim que começara a asfixiá-lo.

Debatendo-se, Kevin acabou deixando sua faca cair, impossibilitando sua defesa.

- Seu bosta! – vociferou Ricardo. – Pensou que me enganaria, mas esqueceu-se de dar a descarga... Os remédios ainda estão lá!

Kevin continuou tentando sair daquela situação, mas não tinha forças para tal. Dando-se por vencido, ele não mais resistiu.

Ricardo chorou ao retirar o travesseiro da face do aidético. Morto, Kevin continuava com seu olhar triste.

O telefone tocou e o empresário atendeu-o rapidamente. Era sua amante, a bela secretária de seu escritório.

- Desculpe-me ligar aí para a sua casa, sei que não gosta disso. – disse ela, do outro lado da linha. – Mas é que eu não consigo ligar para o seu celular.

- Está tudo bem. – disse Ricardo, sufocando o choro. – P... pode dizer.

- Só queria confirmar o nosso encontro. – disse a secretária, entusiasmada. – Você vem me pegar às nove?

- Eu... eu vou, sim. – respondeu Ricardo. – Mas, pode ser que eu me atrase um pouco.

Ricardo desligou o telefone e pôs-se a chorar novamente. Olhou para Kevin, lembrou de todos seus momentos juntos... Ele queria prestar-lhe uma última homenagem, servindo esta como um pedido de perdão. Talvez Kevin estivera certo durante todo o tempo... Talvez Ricardo nunca tenha reconhecido o seu verdadeiro valor.

Beijando-lhe os lábios e o pescoço, sentiu seu cheiro e sorriu maliciosamente. Olhou para baixo e viu algo brilhar, algo chamando por ti...

Abaixou-se e pegou a faca. Brincou com sua lâmina, encostou-a em seu pescoço, mas acabou fincando-a no peito, imaginando ser menos dolorido. Suportou a dor e decidiu se deitar de barriga para baixo, assim acelerando sua morte. O sangue espalhou por todo o lençol branco, mas encontrou uma barreira em seu caminho, tendo ele de fazer um contorno entre as mãos dos falecidos, já que Ricardo escolheu morrer com elas dadas àquele que outrora lhe ensinou o que era amar...

Parte V – Voto de silêncio, ou o epílogo

A polícia encontrou os corpos três dias depois, mas por algum motivo oculto, a carta com as revelações de Kevin nunca fora encontrada; apenas aquela destinada a sua mãe, que, dias depois, foi entregue às mãos da mesma.

Um mês após o triste acontecimento, com o Paulinho em seus braços, a dona Zélia, mãe de Kevin, decidiu visitar o túmulo de seu filho pela primeira vez.

Sem dizer uma só palavra em sua homenagem, apenas deixou ali uma coroa de flores e uma carta. Ela foi embora rapidamente, sem ao menos derramar lágrimas.

Com a brisa, a carta acabou sobrevoando o cemitério e quem se propôs a lê-la foi o vento e seu lúgubre uivar, que diante demasiada sabedoria, calou-se após o término da leitura.

“Meu filho Kevin,

Eu sempre tive orgulho de você.

Com amor,

Sua mãe”.

(Davi Mello)

sábado, 19 de setembro de 2009

CONTO

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O PERFUME DA VIDA

Assim que sentou no banco da praça, Emilie retirou um maço de cigarros e acendeu um deles. Enquanto tragava, as lágrimas escorriam por seu rosto, manchando sua maquiagem. Ao seu lado, trajando um terno preto de classe e calçando um lustroso sapato de couro, estava um cego careca acompanhado de seu cão labrador. Ele olhou para a triste mulher e sorriu.

- Eu adoro este cheiro. – disse.

- Desculpe-me, eu não queria lhe perturbar. – lamentou-se Emilie, enrubescida. – É que bateu aquela vontade...

A jovem loura jogou o cigarro fora e expeliu a fumaça. Quando ia se levantar, o cego a segurou no braço, contendo-a.

- Espere! – exclamou ele. – Não quis ser grosseiro. Eu não me importo com os fumantes... Só estava elogiando sua fragrância.

- E-eu agradeço, moço. – balbuciou Emilie, sufocando o choro.

- Você me cheira a orquídeas e nostalgia. Nesse minuto em que está aqui, recordei dos meus momentos de infância... Ah! Como eram gentis a vovó e meu tio Oscar! Sabia que ela fazia deliciosos bolinhos de chocolate? – revelou-lhe o cego. – É... Seu perfume cheira a algo tão ou mais doce quanto!

Emilie sorriu, secando rapidamente suas lágrimas com as mãos.

- Você foi a única pessoa que conseguiu me alegrar no dia de hoje. – contou a jovem.

- Aposto que és tão bela quanto a uma orquídea. Inocente e frágil como suas pétalas... Mesmo eu, um cego qualquer, consigo enxergar isso.

- É muita gentileza de sua parte. Eu lhe agradeço...

- Ora, neste mundo de mentiras, por vezes, é preciso escutarmos verdades, não concorda? – o cego passou uma de suas mãos para o ombro de Emilie e esta, por sua vez, encostou-se ao cavalheiro. – Mas me diga, princesa... O que a traz aqui, ao banco dos suicidas?

- Banco dos suicidas? – exclamou Emilie, surpresa. – Porque diz isso?

- Você não é a única ou a primeira que conheço a sentar-se aí. As pessoas caminham até aqui e, pensativas, arquitetam um plano de acabar com suas infelizes vidas.

- T-talvez... Talvez eu não esteja aqui para isso.

- Oh, então me desculpe, mais uma vez. – disse o cego, sorrindo. – Então, ao que parece, serei eu o suicida.

- Não! – gritou a jovem. – Por qual motivo você faria isso?

- Por incontáveis razões, princesa... É! Eu sim mereço estar no banco dos suicidas, diferente de você!

- Não quero que cometa esta loucura, só porque... só porque...

- Porque sou cego? – zombou ele.

- Eu... Eu não...

- Está bem, querida, não estou zangado com você, eu juro! Mas eu não estou aqui para isso. Posso não lhe enxergar, ou posso nunca ter visto uma orquídea antes; posso não ter conhecido papai e mamãe, ou sequer poder ter admirado o riso de minha avó; porém, sou cego apenas dos olhos, pois enxergo tudo! Ah, e como enxergo! E, se digo que não estou aqui com este vil propósito, então tenho a convicção de que você sim está! Eu posso ver isso, eu sinto...

Emilie tentou dizer alguma coisa, mas a emoção retirou-lhe todas as palavras.

- Me diga, minha querida, - continuou o cego, proferindo cada frase pausadamente. – o que te fizeram?

- Descobri que meu namorado anda me traindo. – revelou Emilie. – E isso não tem muito tempo! Eu estou definhando, dia após dia. Ele não mais me ama, não mais me deseja. Eu lhe perdoei, mas ele prefere ficar com a outra. Ele... ele disse que eu era um passatempo e que nem bonita sou!

O cego retirou seus óculos escuros e entregou-lhes a moça. Emilie segurou-os firmemente, mesmo sem entender o propósito daquilo.

- Fique com isso. Presenteie seu ex-namorado com este par de lentes negras. Acho que o orgulho e a fragilidade acabaram por cegá-lo. Não se chateie com isso, princesinha. Existem dois tipos de homens nesse mundo... O primeiro deles é o mentiroso, e o segundo, o aproveitador. O romântico, e também carinhoso, é apenas uma subcategoria que nem todos hão de alcançar, nem se viverem cem mil anos.

- Então acho que o Bran era um homem duplo, moço. Fez-se de romântico no princípio de nosso relacionamento, mas no fundo, não passa de um mentiroso e aproveitador...

- Você sabe o que significa Bran, minha querida? – perguntou o cego. – Corvo! É! Exatamente aquele animalzinho que se alimenta de restos podres, das vítimas infelizes dos mais fortes... O corvo, aquele que representa a morte e seu piar anuncia um enterro. Tampe seus ouvidos quando escutá-lo. Não abrevie os seus dias, eles por si mesmos já são curtíssimos.

Emilie levantou-se do banco, o cego não mais a agarrou. Ela beijou seu rosto rosado, depois tocou seus lábios.

- Gostaria que pudesse ver o quão atraente és! – disse a jovem, por fim.

- Para aonde vais? – indagou-lhe o cego.

- Seguirei em frente. Já tenho as pedras que precisava para lançar aos corvos. – revelou, muito sorridente.

Emilie prosseguiu com a sua caminhada. Retirou mais um cigarro do bolso e o acendeu. Logo, enquanto sua tênue sombra desaparecia, a única coisa possível de se ver era o rastro da fumaça deixada pelo fumo.

Ainda sentado, o cego acariciou o seu cão.

- Acho que este lugar ficará vazio por um tempo, não é Brutus? – disse, com um sorriso de satisfação desenhado em seus lábios. - As almas preparadas não escolhem a hora de sua morte. Ninguém tem este poder, Brutus.

E levantou-se do banco dos suicidas para não tão cedo regressar. Havia outros trabalhos a fazer, trabalhos estes que não podiam ser interferidos...

O seu piar já estava atrasado para a maioria deles.

(Davi Mello)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Cascão Porker

CASCÃO PORKER - SÁTIRA DE QUALIDADE!

Os fãs esperavam, ansiosos, pela edição de número 15 da série "Clássicos do Cinema", uma revistinha bimestral com releituras cômicas das mais conhecidas histórias da sétima arte!
Eu mesmo fiquei dias e dias lendo o twitter do Mauricio de Sousa, aguardando as novidades de "Cascão Porker" e sua data do lançamento.

Enfim, eis que hoje me deparo com este imperdível gibi exposto em uma vitrine de certa livraria. Pelo jeito, vários exemplares já tinham sido vendidos. Levei o primeiro que vi, deixando apenas mas um para algum outro sortudo!

Pois bem, dei uma folheada no ônibus, li algumas páginas, mas decidi guardar a surpresa para mais tarde. Assim que pisei em minha casa, fui direto para o quarto e iniciei, novamente, a leitura do quadrinho.

Confesso que nunca me diverti tanto com a Turminha desde aquela história deliciosa e hilária sobre a origem da Mônica, publicada em uma edição especial de 40 anos!
O roteiro de Flavio de Jesus é impecável, bem como as ilustrações, a arte-final e as cores! Cascão Porker é uma verdadeira obra de arte! Um dos mais belos gibis infantis que já peguei em minhas mãos!

Não quero estragar a surpresa, mas já lhes adianto que vocês riram MUITO e se encantarão com um universo totalmente maluco que não só faz parte da série de livros de Harry Potter, mas também, que homenageia outros grandes clássicos da Fantasia!

Dirija-se agora mesmo até a Plataforma Nove e Pouco e embarque no trem com destino a Escola de Magia de Hográtis! Divirta-se ao lado de Cascão Porker, Ceboloni Uéslei e Hermônica. Desvende os segredos d'aquele-que-não-deve-ser-nem-mesmo-cochichado e participe de uma inesquecível partida de Quadrinhobol! Eu aposto que você ficará com vontade de ler os próximos volumes da série "Cascão Porker", os quais espero que sejam publicados logo, logo!


quarta-feira, 15 de julho de 2009

HARRY POTTER E O ENIGMA DO PRÍNCIPE

A espera acabou!

Depois de ter sido adiado em 8 meses, finalmente os fãs do bruxinho mais famoso do mundo poderão assistir a sexta adaptação cinematográfica da série de livros criada pela escritora britânica J.K. Rowling!

Acho que metade do mundo pelo menos já ouviu falar em "Harry Potter, o menino que sobreviveu". O fato é que a série é um sucesso tanto na telona quanto na literatura! E pensar que Rowling não foi aceita por várias editoras... Recentemente, vi em uma entrevista que o primeiro livro da saga - Harry Potter e a Pedra Filosofal - foi reescrito 10 vezes pela escritora... À mão! Um grande exemplo de força de vontade, de uma mulher determinada em alcançar seus objetivos, ainda mais no ramo da literatura, que é tão difícil.

Com o sucesso imediato, não demorou muito para que os direitos dos livros fossem vendidos a uma boa distribuidora de filmes, e em 2001, fomos agraciados com o primeiro longa da franquia, dirigido por Chris Columbus, famoso cineasta americano que foi roteirista de clássicos como Gremlins e Os Goonies, ou seja, sabíamos que o resultado não seria ruim! Foi justamente este filme que me fez despertar um grande interesse pela série, e em mais alguns milhões espalhados pelo mundo.

Desde então, a saga de Harry Potter se tornou uma das maiores bilheterias da história do cinema, arrecadando mais de 4 bilhões de dólares em todo o mundo; sem contar que os livros continuam sendo um sucesso, tanto que Rowling se tornou a escritora mais rica do mundo!

Sem dúvida, um dos lançamentos mais aguardados do ano era Harry Potter e o Enigma do Príncipe. Os ingressos começaram a ser vendidos com certa antecedência, alcançando recordes de vendas em pouco tempo... E já era de se esperar que eu pegaria uma fila quilométrica - maior do que a da Ordem de Fênix, em 2007 - para assistir ao filme.

Depois de algum tempo de espera - cerca de uma hora e dez - finalmente consegui comprar meus ingressos para a sessão que aconteceria dali mais uma hora. Com o término dessa longa jornada, finalmente estava dentro da sala do cinema, em meio a mais algumas centenas de fãs que aguardavam o filme com muito entusiasmo! E, posso dizer a vocês, que toda essa cansativa empreitada valeu a pena! O filme, que é dirigido por David Yates - também diretor do anterior, Harry Potter e a Ordem da Fênix - possui uma atmosfera sombria, um clima tenso e efeitos extraordinários.

O início nos deixa bem confusos. As forças das trevas então tentando acabar com o mundo dos trouxas e, para isso, precisam dominar o mundo dos bruxos também. Os mistérios só aumentam com o passar dos minutos.

Hogwarts já não é um lugar seguro como antes, os alunos têm medo de voltarem para a escola de magia e bruxaria. Sabendo que o perigo possa estar dentro da própria escola, Dumbledore recruta um velho amigo, o Professor Horacio Slughom, suspeitando que este tenha informações úteis que o ajudarão em seus planos.

Enquanto isso, os hormônios adolescentes espalham-lhe por todo o castelo, a era dos romances e das decepções amorosas só está começando! E em meio a tantos problemas, eis que surge mais um, talvez o crucial da trama: um estranho livro de poções que outrora fora do Príncipe Mestiço.

Agora, Harry precisará juntar as peças desse quebra-cabeça que é mais sombrio do que aparenta realmente ser...

Embora o filme tenha seu lado obscuro, ele se difere dos anteriores por mostrar melhor o amadurecimento dos personagens principais. Boa parte da trama gira em torno de um possível romance entre Harry Potter e Gina Weasley e da quase impossível união de Rony Weasley cHTML clipboard om Hermione Granger, que acaba tendo um ataque de ciúmes e faz voto de silêncio.HTML clipboard

A ação fica de lado por um tempo, talvez a Ordem da Fênix seja mais emocionante neste ponto. Nesse novo filme, os melhores momentos são justamente os finais, ou as cenas em que são mostradas memórias do passado que interferirão nas escolhas de Dumbledore. Devo ressaltar também a importância de Draco Malfoy, que durante o filme luta consigo mesmo a fim de realizar um diabólico plano junto aos Comensais da Morte.

Para finalizar, este talvez seja o filme feito especialmente ao público jovem e adulto. Acredito que algumas crianças que acompanham a série possam ficar incomodadas com certas partes, principalmente com o romance que está ali o tempo todo.

Enfim, surpresas, risos e sustos lhe esperam! Harry Potter e o Enigma do Príncipe consegue ser melhor que seu antecessor, e ainda digo mais, um dos melhores de toda a saga!


COTAÇÃO:


sexta-feira, 12 de junho de 2009

CONTO

DÚVIDA

Ela não sabia onde estava.

Ele também não.

Ela sentia frio.

E ele, fome.

Ela gritava de desespero, abraçando a si mesma.

Ele continuava calado, tentando compreender tudo aquilo.

Ela escondia um segredo.

E ele, uma caixa.

Ela se calou.

Ou melhor, ele a calou tampando-lhe a boca com sua mão.

- Não deixem te ouvir. – sibilou. – Gritar não vai nos tirar daqui.

- Quem é você? – perguntou ela. Sua voz saiu abafada dentre as distâncias dos dedos do rapaz.

- Nomes não são importantes agora. – percebendo que a garota já estava mais calma, tirou a mão de seu rosto. – Me chame de Frio.

- Eu sou...

Antes que a jovem pudesse se apresentar, ele interveio.

- ... a Fome. – disse, sorrindo. – Onde estamos?

Sua pergunta se perdeu na escuridão.

- Você está bem? – perguntou ele, quebrando o silêncio.

- Não. – confessou ela. – Eu quero sair daqui... O que é isso que tanto aperta? - Fome apontou para uma caixa amarela que Frio segurava.

- Lembranças.

- Por que as trouxe?

- Eu sempre as carrego. – revelou ele, ríspido. – As pessoas preferem carregá-las dentro de si, e eu, no interior de algo sólido.

- Posso vê-las?

- Não estou com a chave... Deve ter caído em algum lugar assim que bateram em meu carro.

- Você também sofreu um acidente? – quis saber Fome.

- Pelo jeito aconteceu o mesmo com você... – ele coçou o queixo, seus olhos cinzentos brilhavam na penumbra. – Eu ia visitar minha namorada. Nós brigamos, queria fazer as pazes com ela. Mas bateram em meu carro. Quando dei-me conta, aqui estava. – ele suspirou tristemente. – E você?

- Eu recebi um telefonema... Não me recordo de quem! – Fome resmungou, chorosa. – Só sei que me deixou muito triste, então fugi. Quis sumir por um tempo e, pelo visto, consegui.

A jovem percebeu que Frio sequer lhe dava atenção, pois o mesmo estava com o ouvido colado à parede, pedindo para que ela se calasse.

- Está escutando isso? – indagou-lhe. – Acho que fomos sequestrados.

- Por que gosta tanto de me assustar? – ela dirigiu-se até o local em que Frio estava e fez o mesmo que ele. – Eu não ouço nada.

- Estão falando sobre um acidente. – disse Frio. – Duas pessoas conversam sobre uma batida de carros... Acho que a gente se chocou no percurso de nossas vidas e, por um motivo ainda irrelevante, nos trouxeram para cá.

Fome chamou por Frio.

- Escuta, escuta... Ouço passos. Alguém está vindo nos ver.

A jovem correu para um canto da parede e sentou-se, escondendo o seu rosto entre as pernas. Frio a seguiu e fez o mesmo.

Uma luz incandescente adentrou o recinto, os prisioneiros tentaram ver quem ali entrava, mas não conseguiram. Abaixaram a cabeça mais uma vez.

- Já sabem por que estão aqui? – perguntou um homem dotado de uma voz muito bela.

- E deveríamos? – quis saber Frio.

- Não sei. – confessou o estranho. – Por que não pergunta a esta moça o que ela esconde no bolso da jaqueta? E se for uma peça deste quebra-cabeça?

E então, o desconhecido saiu, trancando a porta e trazendo a escuridão de volta.

- Você conseguiu vê-lo? – perguntou Frio.

- Não. – negou Fome, tristemente. – Ela tateou o bolso de sua jaqueta e sentiu alguma coisa. Ela suspirou, aliviada. – Ainda está aqui! - O desabotoou e segurou o que quer que fosse.

Frio a encarou com suspeitas ao ver o que Fome colocou na palma de sua mão.

- Quando pretendia me contar? – ele parecia nervoso.

- Eu não sabia o que era. Podia ser do meu carro, ou da minha casa, entretanto, depois que aquele homem estranho veio até nós, percebi que era sua... – Fome alisou o ombro de Frio, carinhosamente. – É a chave da caixa, não é?

Frio afirmou com a cabeça.

- Por que não a abre? E se isso nos ajudar a compreender o porquê disto tudo?

- São apenas lembranças... Não vãos nos ajudar!

Fome notou que os olhos de Frio enchiam-se de lágrimas.

Ele foi erguendo a tampa da caixa que tanto estimava, lentamente. Uma bonita melodia emanou-se dali, bem como uma pálida luz.

- É um presente de meu avô. – revelou Frio. – Quando pequeno, eu só conseguia dormir se a luz da caixinha estivesse acesa. Eu me lembro que um dia ela se queimou. Eu acordei muito assustado, estava imerso ao breu infinito... Nunca senti tanto medo!

- E estar aqui, preso sem saber o porquê, ainda mais com uma desconhecida, não lhe assusta? – as lágrimas já escorriam pelo rosto de Fome.

- Não... – balbuciou Frio. - E então, finalmente abriu a caixa, deparando-se com fotos, cartas e pequenos soldadinhos de plástico. - Você já fez tantas perguntas e eu quero lhe fazer apenas uma... – ele retirou uma foto dali de dentro e a entregou para Fome. – Por acaso eu te conheço?

- E-essa da foto sou eu? – gaguejou a jovem. – Como... como...

O quebra-cabeça começava a ser resolvido.

- Não reconhece minha voz? – Frio revirou a caixa com brutalidade, retirando dali dezenas de fotos suas com a garota ao seu lado.

- Foi você que me ligou! – exclamou Fome, surpresa, folheando as fotos que lhe foram entregues. – Seu gênio estúpido me fez parar aqui! Por sua causa peguei o meu carro e...

- ... e? E bateu em meu veículo? – gritou o moço.

- E-eu... Eu não sei o que dizer!

Os dois se abraçaram, aos prantos, pedindo desculpas um ao outro

- O que é este ferimento em seu peito? – ele afagou os seios da amada. – Você está sangrando.

- Você também... – ela apontou para a nuca do rapaz.

Desconfortavelmente, ele levou as suas mãos até o local indicado, e quando as trouxe de volta, estavam ensanguentadas.

- Nos ferimos no acidente, querido. – Fome roçou o nariz nos lábios de Frio, e desceu com a cabeça até ao seu peito, levantando abruptamente.

- O que houve?

- Acho que não sobrevivemos ao acidente, meu amor. – falou Fome, soturna. - Não ouço o seu coração. – Ela levou a mão do amado até seu peito.

- Nem eu o seu. – confessou ele, melancolicamente.

Inexplicavelmente, uma pequena peça de quebra-cabeça caiu no meio dos dois. E logo, muitas outras caíam do teto, como se o mesmo estivesse se desfazendo.

Antes que o clarão pudesse adentrar o recinto pela última vez, o casal de abraçou.

Ela sentiu Frio.

E ele sentiu Fome.

(Davi Mello)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Poema Ilustrado

POEMA ILUSTRADO #1 - MÍMICO

(clique nas imagens para ampliá-las)






Poema: Davi Mello


Ilustrações: J.J. Barbosa

sexta-feira, 29 de maio de 2009

CONTO

É PROIBIDO SONHAR

Ele acordou e fingiu que não me viu ali.

Espreguiçou-se todo, coçou a bunda e foi até o banheiro. Chamei por seu nome, ele fingiu não ouvir.

O segui. Ele olhava no espelho com um olhar preocupado, parecia não reconhecer a si mesmo. Alisava o seu reflexo com a tez franzida, estava muito estranho.

Cheguei por trás e o abracei. Beijei o seu rosto e senti o hálito de menta. Ainda havia pasta dental nos lábios carnudos.

- Está tudo bem? – perguntei.

Ele retirou as minhas mãos de seu corpo, com repulsa.

- O que aconteceu? – perguntou-me. Podia ver a confusão em seus olhos.

- Ed...

- E-eu não sei o que faz aqui... – Ele se afastou de mim como se estivesse defronte a um monstro. Pegou sua pasta-de-dente e apontou-a para mim, ameaçadoramente. – Saia!

O olhei com certo desprezo. O que diabos estava acontecendo com o Eduardo? Xinguei-o, todavia ele não se importou. Voltou a alisar seu reflexo no espelho e nem tentou me impedir de ir embora.

Eu não queria chorar, mas foi inevitável.

Até ontem estava tudo bem. Ele disse incontáveis vezes que me amava, rimos juntos e dançamos como nos filmes românticos. Era para ser uma data especial, afinal, completamos um ano de namoro. Tínhamos planos, e na noite anterior, após fazermos amor, conversamos sobre o nosso futuro e decidimos a data do casamento. E agora, todos os nossos sonhos tinham sido destruídos por um motivo ainda oculto...

Desci as escadas de seu apartamento carregando apenas uma bolsa. Controlei minhas lágrimas, não queria que ninguém me visse daquele jeito. Atravessei uma das movimentadas ruas de São Paulo sem olhar para os lados. Se um carro me atropelasse naquele momento, eu não me importaria.

Havia um mímico logo à frente. Percebi que ninguém lhe dava atenção, era como se ele sequer existisse. Tinha uma aparência sisuda, mas seu olhar ostentava tristeza. Incrível como alguém consegue se expressar apenas com gestos, sem movimentar os lábios, e, mesmo assim, não é notado. O mímico é apenas mais um na sociedade.

Eu o entendia. Talvez por isso curvei-me até a caixinha próxima aos seus pés e deixei ali uma nota de cinco reais. Ele continuou com a sua mímica, nem agradeceu, nem olhou para minha pessoa, muito menos sorriu. É! Acho que também sou só mais uma na sociedade.

Andei por mais alguns minutos. Abri a porta de minha casa e larguei-me no sofá. Chamei por minha mãe, mas parecia que ela não estava lá. Subi as escadas e pude escutar o seu típico cantarolar enquanto cosia.

- Mãe? – chamei.

- Eu já estava farta dessa monotonia. – disse ela, com a cabeça baixa. – Pensei que voltaria no sábado.

- Aconteceu algumas coisas...

Mãe sempre percebe quando há algo errado com o filho. Ela interrompeu imediatamente com a sua costura, levantou-se das cobertas e me beijou. Seus lábios se moviam, provavelmente procuravam as palavras certas.

E então, disse-me que me amava e se calou, fitando-me como uma estranha. De supetão, afastou-se de mim e chorou.

- Quem é você? – indagou-me, muito confusa. – Deixe-me em paz!

Tentei ajudá-la, mas não pude. Quanto mais eu me aproximava, mais ela gritava. E então, com os olhos marejados, ordenou que eu fosse embora, e o fiz.

Não tinha mais nenhum lugar para eu ir. Fiquei na praça perto de casa, pensando no que poderia estar acontecendo. Lembrei do Eduardo, do jeito com que ele me olhou, e ao mesmo tempo, a imagem de minha mãe gritando comigo não saía de minha cabeça. Foi aí que, observando a tudo e todos, percebi que a bizarrice não era só comigo. As pessoas estavam diferentes. Andavam de cabeças baixas como se tivessem perdido algo... Perdido uma chave, um bilhete, uma moeda, um amor, um sonho... Perdido as lembranças ou suas memórias. Em um minuto, pais e filhos brincavam carinhosamente; no outro, pareciam se odiar. Notei que um casal de namorados – aparentemente muito apaixonados, pois andavam abraçados e trocavam carícias – passou perto de mim. Minutos depois, andavam a sós, um de cada lado, como se nunca tivessem se conhecido.

Estava muito atribulada com tudo aquilo. Achei que fosse algo de minha cabeça, mas com o passar dos minutos, as coisas só pioravam. Às vezes escutava um grito ou um choro, mas logo ficavam no passado. Estava imersa à confusão e ao silêncio.

Quando me dei conta, alguém se aproximava de mim...

Era o mímico.

Pela primeira vez notei que era uma mulher... Podia ser um homem, claro! Na verdade, não sei ao certo, só sei que estava tranqüilo; ainda com um semblante sisudo, todavia, tranqüilo. Não veio até a mim com ofensas ou gritos, nem parecia estar confuso, apenas triste.

Ele fez uma mímica engraçada e conseguiu arrancar-me um sorriso. Sentou-se ao meu lado e ficou me imitando. Sabia o que ele queria dizer. Pelo jeito, estranhava os recentes acontecimentos, igual a mim.

- É uma conspiração? – perguntei-lhe. – Cadê as câmeras? Será que é algum tipo de reality-show?

O mímico balançou a cabeça, e depois, fingiu estar sendo estrangulado. Por fim, levantou-se do banco da praça e lançou-se no chão, fingindo dormir. Levantou logo em seguida e balançou a cabeça novamente.

- Você não consegue dormir? – perguntei.

Ele negou com o um aceno.

- Você não consegue... Sonhar? – arrisquei.

Ele afirmou com um sinal positivo.

- E o que isso tudo tem a ver com o que está acontecendo?

O mímico ergueu sua mão enluvada e a posicionou em meu rosto. Tapou os meus olhos e eu nada mais vi. Senti que ele desceu minhas pálpebras com delicadeza...

Quando abri os olhos novamente, notei que eu não estava mais na praça; encontrava-me sentada de cócoras em um gramado muito bonito.

Escutei passos, olhei para todos os lados e deparei-me com o mímico. Ele sorria para mim.

- No que você acredita? – indagou-me.

- E-eu... Eu não sei. – gaguejei, confusa. – Nos sonhos?

Ele deu de ombros.

- Então você acredita em tudo! – respondeu. – Disseram-me que somos formados por sonhos! Está vendo este céu, ou as nuvens? – ele apontou para o horizonte, sorrindo. – É tudo sonho!

- E você acredita nisso? – quis saber.

- Eu prefiro não acreditar. Você se lembra de tudo o que você já sonhou?

Antes que eu pudesse lhe responder, o mímico me interpelou:

- Se nem dos pesadelos nos recordamos direito, imagine os sonhos bons! E se formos, realmente, constituídos por sonhos? Também seremos esquecidos?

- Achei que mímicos não falavam. – disse, angustiada com tudo o que ouvira.

- Não me culpe. Estou em sua mente, em sua cachola, entende? Nada mais sou do que parte deste sonho que você está tendo.

- Tudo bem! – exclamei, exaltada. – Se estou sonhando, não vou me lembrar de você, mesmo!

- Eu não lhe disse? Mas se servir de consolo, não lembrará deste sonho nem dos outros pequenos fragmentos de seus devaneios anteriores! Quando você acordar, já não sonhará mais, tampouco vai poder resgatar lembranças na sua mente... Sua imaginação ficará perdida no vazio... Ficarás como todos os demais.

- E-então você sabe o porquê de estar havendo isto? – balbuciei.

- Sim. – o mímico fechou a cara de repente. – Eu nunca sonho, se recorda? Ninguém nota minha presença, ou seja, deixam de lado um sonho...

- Não pode fazer isso! Você está... Assim você está destruindo todos os outros sonhos!

- Não fui eu que comecei. – ele sorriu, mas ainda estava triste. – Mas se me permite, lhe darei um conselho. - ele aproximou-se de meus ouvidos e sibilou: - Haja o que houver, nunca pare de sonhar!

Despertei-me, porém, estava em outro lugar. Deitada sobre uma maca, com os pés e mãos amarradas feito a um criminoso, notei a presença de mais uma pessoa dentro daquele escuro e úmido recinto. Ao meu lado, segurando uma seringa com um líquido fosforescente em seu interior, estava um enfermeiro caolho que vestia um avental azul bem sujo.

- O-onde estou? – gritei. - Eu quero sair daqui! – exclamei, tentando fugir daquela situação, entretanto, só consegui hematomas.

O enfermeiro fincou a agulha em meu braço; não doía, mas eu chorava. O líquido adentrou minhas veias, senti-o percorrendo por todo o meu corpo.

- Amanhã não se lembrará disso. – disse o enfermeiro. Sua voz saiu abafada pela máscara cirúrgica. – Pela manhã, não se lembrará de nada.

- O que você fez comigo? – perguntei enquanto ele me desamarrava.

- Só estou lhe poupando de um mal, assim como o fiz com os outros. Não sabe que agora sonhar é proibido?

- Sonhar não é proibido! – gritei.

O enfermeiro fitou-me com desdém e continuou com seu “trabalho”.

- Agora não sofrerás ao ver seus sonhos fracassarem. Não se importarás com o passado, nem se lembrarás do que viveu antes do amanhã. Estamos lhe dando uma nova vida, uma nova chance. Quando você sair por esta porta, – ele apontou para a mesma – já terás esquecido até mesmo dessa nossa conversa.

- Eu não vou me esquecer. – disse, contrariando-o. – Sei disso!

O enfermeiro abriu a porta para mim. Eu deixei aquela sala fazendo um esforço para lembrar cada palavra proferida por ele.

Acordei e já era tarde. Sentia dores na cabeça e no corpo. Afaguei o lençol à procura do corpo de Ed, mas o lado esquerdo de meu leito estava vazio.

Então eu lembrei. Lembrei de ter sonhado com um bolo de pétalas de rosas brancas. Ainda sentia o seu gosto azedo. Fiz uma careta, fui até o banheiro e debrucei-me sobre a pia.

Eu ainda me reconhecia. Ainda era jovem e pálida, mas atraente.

Abri a janela de meu quarto. Avistei pessoas lá embaixo. Toda confusas, todas foram alvos da calúnia e acreditaram nela, por isso esqueceram do passado. Eu podia mudar isso!

- Você aqui novamente? – gritou minha mãe ao me ver deixando o quarto.

Evitei discussões. Ainda de pijama, desci as escadas, fui até a praça e fiquei de pé sobre o banco. Pedi a atenção de todos, mas sequer me notaram.

- Sonhar não é proibido! – gritei. – É preciso!

Um ou outro olhou para a minha direção.

- E se sonhar for realmente proibido... – eu tentei conter as lágrimas, mas elas já desciam por meu rosto. - ... nosso único delito é Sonhar!

Escutei alguns murmúrios.

Sonhar?

Sonhar?

O que é sonhar? – comentavam entre si.

Então eu fiz uma mímica. Dentei-me sobre o banco da praça e fingi dormir, mas com os olhos abertos. Nada mais disse. Meu gesto foi o bastante para fazer todos se recordarem.

Sonhar!

Sonhar!

É o que estamos fazendo... – passaram a comentar.

E, em meio a toda aquela algazarra, pude ver o mímico do outro lado da rua. Não se movia, estava estático.

Desviei-me das pessoas e fui em sua direção. Ele me encarou com aquele seu olhar melancólico e sentou-se na calçada, tristemente. Talvez aceitara a derrota.

Sentei ao seu lado, posicionei a cabeça dele sobre o meu colo e alisei seus cabelos arroxeados.

Ele arqueou as sobrancelhas abruptamente.

Notei um sorriso se formando em seu rosto, e logo, seus olhos cederam, fechando-se. Era a minha vez de conceder a ele uma nova chance.

- Shiiuu! – sibilei, enquanto alisava o seu rosto maquiado. – Tenha bons sonhos!

Ao meu redor, tudo se voltava a sua normalidade. As pessoas conversavam, compravam e trabalhavam. O mundo parou de sonhar por algumas horas, mas era como se ninguém tivesse notado... E por nossos gestos e aparências cansadas, dei-me conta que só tínhamos acabado de acordar de um sonho ruim, já esquecido.

(Davi Mello)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

STAR TREK


Um dos filmes mais aguardados do ano, Star Trek, décimo primeiro da saga Jornada nas Estrelas, estreia com grandes expectativas e, felizmente, faz bonito!


Antes de qualquer coisa, quero ressaltar que nunca fui um trekker, tampouco acompanhava as séries da saga feita para a televisão, muito menos assisti aos seus dez primeiros filmes! Para ser franco, nunca fui fanático por produções audiovisuais que tenham a temática espacial, até descobrir, no ano passado, que ninguém mais que J.J. Abrams - criador de LOST - assumiria a direção do novo filme de Jornada nas Estrelas.


Venho acompanhando o trabalho de J.J. Abrams há um bom tempo, desde seu primeiro filme, Missão Impossível III, até a sua recente produção de Cloverfield - Monstro.


A verdade é que J.J. tem uma imaginação impressionante, consegue criar histórias mirabolantes e cheias de muito mistério e ação, mostrando que possui o típico intelecto de nerd! Pois ele conseguiu agrupar tudo aquilo que já criou num filme que, certamente, agradará a todos, fãs ou não de Jornada nas Estrelas!


Confesso que as primeiras cenas do longa-metragem são intermináveis e dão um sono danado, mas a história se flui com o passar dos minutos destacando-se por suas cenas de ação e adrenalina, como a de James T. Kirk (Chris Pine) dirigindo um automóvel em sua adolescência... Fantástica!


A trama mostra como Spock - interpretado por Zachary Quinto, o Sylar de Heroes - e James T. Kirk se conheceram e conseguiram ingressar na tripulação da mais importante nave do Universo, a U.S.S. Enterprise. Por mais que ambos não se deem bem, terão de se unir com o intuito de acabar com uma ameaça alienígena que promete destruir os planetas do sistema solar.


Uma outra coisa bem bacana e que merece ser destacada é a diferença de personalidades dos protagonistas: Spock e James são gênios, porém, cada um possui uma visão de vida. Spock - um meio-vulcaniano - não atura o preconceito e está disposto a opor-se a quem for em busca de seus objetivos, enquanto James - humano - prefere curtir os prazeres da vida, dando a mínima para as consequencias que isso pode lhe trazer. É praticamente impossível pensarmos que pessoas tão distintas poderão chegar a um acordo!

Outro fator interessante é que Leonard Nimoy - ator que interpretou Spock na antiga série - também participa do filme, e isso com certeza agradará aos fãs!


Enfim, se quiser ver um filme de qualidade, com uma trilha-sonora maravilhosa e atuações brilhantes, afora cenas de tirar o fôlego, corra para a rede de cinemas mais próxima de sua casa e assista Star Trek! Diversão garantida até o último minuto!


Que venha mais 11 filmes da saga... Desde que sejam tão bons quanto este! (risos)


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