sábado, 14 de agosto de 2010

CINEMA - Reflexões de um Liquidificador

Talvez o nome do filme, Reflexões de um Liquidificador, não consiga despertar o interesse dos espectadores brasileiros. Aliás, alguns cineastas brasileiros têm o costume de colocar nomes bizarros em suas produções cinematográficas, e venho observando que estas são as que mais conseguiram me surpreender. O Cheiro do Ralo e Os Famosos e os Duendes da Morte são exemplos de filmes que receberam nomes estranhos mas que estão acima da média, e com Reflexões de um Liquidificador, novo filme de André Klotzel, não é diferente. Quem sabe o fato de Selton Mello estar no elenco, ou pelo menos sua voz, ajude a levar um maior público ao cinema. Este é um filme que não pode ser deprezado. Reflexões de um Liquidificador precisa ser assistido em massa, precisa ser apreciado por todos os amantes de um bom filme nacional.

André Klotzel tem um jeito divertido de narrar suas histórias. A Marvada Carne, seu primeiro longa-metragem, destacou-se por mostrar um Brasil pouco conhecido em filmes, nosso Brasil rural, nosso carismático povo "caipira" e suas tradicionais lendas de aberrações. Em Reflexões de um Liquidificador, o diretor paulistano mantém sua narrativa cômica, uma história cheia de humor negro, e novamente mescla a fantasia com a realidade. Neste não são as lendas que perturbam o personagem, e sim uma misteriosa voz... A voz de Selton Mello, a voz de um liquidificador filosófico e mortal.

O narrador da história é justamente o irreverente liquidificador, que após ter sido consertado adquire o incrível dom de pensar. Ele passa a ser o novo amigo da senhora Elvira, interpretada divinamente por Ana Lúcia Torre, uma mullher simples, já da terceira idade, a típica senhorinha amiga de toda a vizinhança. Mas quando seu marido desaparece inesperadamente e suspeitas apontam que Elvira está relacionada com o ocorrido, o liquidificador passa a ser, também, o seu cúmplice. Ambos compartilham um segredo, e ao longo do filme, remoendo o passado, resgatando suas lembranças antes até de ter se transformado num eletrodoméstico pensador, o liquidificador nos ajuda a entender melhor todo o mistério, e assim, nós, os espectadores, também passamos a ser cúmplices da bizarrice, até nos depararmos com uma das cenas mais divertidas de todo o filme, ao som de risos e assovios.

Mesmo o filme estando em cartaz em apenas uma sala em todo Brasil, na sala 3 do Espaço Unibanco Augusta (São Paulo-SP), Reflexões de um Liquidificador promete divertir muita gente ao longo destas oito semanas à mostra, sempre com um curta-metragem antecedendo o longa e com apresentações de Stand-Up Comedy após as duas últimas sessões do dia. Se não der para assisti-lo agora, não pense duas vezes quando o filme chegar às locadoras. Cinemão brasileiro de qualidade, com humor, alma e sangue... Muito sangue!


COTAÇÂO:

domingo, 8 de agosto de 2010

CINEMA - A Origem

Escrever sobre A Origem não é algo fácil. Seria mais cômodo dizer que o longa é bom, ou melhor, muito bom, e que vale cada centavo do ingresso. Christopher Nolan criou um filme único e divergente, em que as atuações não se destacam, enquanto o espetáculo visual, realmente onírico, é um deleite à parte. Mais do que isso, Nolan nos proporciona caminhos bifurcados, cada detalhe do filme é extremamente importante para a compreensão da trama, assim sendo uma obra feita para ser revista e discutida indeterminadas vezes, entendida de diversas formas.

A premissa de A Origem é simplesmente espetacular! O que seria de nós se um grupo de pessoas tivesse a capacidade de infiltrar em nossos sonhos, interagindo com os personagens e cenários do mesmo, implantando e extraindo informações de nosso subconsciente, perfurando a camada mais misteriosa do intelecto humano? Sem dúvida alguma, romper os muros da privacidade e mexer com toda a estruturação dos sonhos só deixará o indivíduo preso à atmosfera onírica, fazendo-o ter dificuldade em separar a realidade da ficção. Isso acontece com freqüência com os personagens, ao mesmo tempo em que o espectador, aflito a cada cena, depara-se com a mesma situação. Em A Origem, o que é real e imaginário? Até que ponto o filme trata unicamente do mundo dos sonhos? Às vezes nos encontramos no mesmo dilema, entre o crer e o não crer, ceder e aceitar ou enganar-se por toda a vida, e isto é possível ser observado no decorrer da trama.

Os personagens de A Origem são bem arquitetados, Nolan quis trabalhar muito com a subjetividade da maioria deles, vezes fugindo da ação e da ficção-científica e destinando a trama ao drama. Os medos, o arrependimento e o perdão, coisas que afligem o ser humano de corpo e alma e que influenciam em todas às suas ações, são vistos o tempo todo. No entanto, enquanto há muitas informações sobre alguns personagens, faltam em outros. Miles, interpretado por Michael Caine, como sempre formidável, possui um papel pequeno, ainda que importante, mas pouco explorado. Ariadne (Ellen Page, a eterna Juno) surge no filme rapidamente e acaba se tornando uma das protagonistas, a personagem mais jovem e inteligente, mas pouco sabemos sobre ela. Particularmente, achei que a atriz ficou devendo em sua performance. Em relação à atuação, é inevitável frisar, também, que Leonardo DiCaprio parece ser o mesmo Teddy Daniels de Ilha do Medo, de Martin Scorsese.

Os efeitos especiais, assim como em todas as obras de Nolan, são deslumbrantes e assustadores. Muito da ação ocorre em slow-motion, um atrativo a mais, cenas que nos remetem à Matrix. Aliás, não deixei de notar que A Origem tem algo mesmo de Matrix e até de 13º Andar, talvez por se tratar de assuntos e tecnologias parecidas. O fato é que muitas cenas de A Origem ficarão eternamente na história do cinema, em especial aquela da perda da gravidade... Em uma única palavra: GENIAL!

Quem acompanha o trabalho de Nolan perceberá que A Origem tem muito de seus filmes anteriores. Um ritmo tenso e misterioso similar ao de Amnésia, na minha opinião, a obra-prima do diretor; cenas de ação rápidas, feitas com uma infinidade de cortes e planos, vezes que julgamos dificílimos de serem feitos; ótima fotografia, de Wally Pfister, e belíssima trilha-sonora, composta magistralmente por Hans Zimmer, artistas com quem Nolan trabalhou na maioria de seus filmes, incluindo O Cavaleiro das Trevas. Isto só reforça uma coisa que todo mundo já sabia: Christopher Nolan, além de possuir uma mente incrivelmente criativa, firmou um estilo, um estilo ímpar que merece ser apreciado.

A Origem é muito mais daquilo que esperamos ao assistirmos ao trailer. É um filme cheio de símbolos e sensações, um blockbuster que deu certo e que promete fazer muito sucesso. Mais do que surpreender, o longa nos mostra que o cinema ainda consegue nos divertir e fazer pensar, só provando que a imaginação está além do saber do homem... A imaginação é a verdadeira porta ao mundo dos sonhos!


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quarta-feira, 30 de junho de 2010

CINEMA - Toy Story 3

A PIXAR revolucionou o cinema de animação ao lançar o primeiro longa-metragem da história totalmente feito por computação gráfica: Toy Story. A história do garoto Andy e seus brinquedos agradou tanto a crítica quanto aos telespectadores, e na época, a bilheteria do filme se tornou a maior de 1995. Este era apenas o início da épica jornada do caubói Woody e do astronauta Buzz Lightyear, protagonistas de uma das franquias mais amadas do mundo!

Mesmo tendo uma continuação excepcional, embora não superior ao primeiro filme, foi comum para os fãs de Toy Story sentir certo receio com o anúncio da terceira e última parte da série. Receio e ansiedade na verdade, pois o desejo de todos nós que crescemos nos anos 90 era poder rever os eternos heróis brinquedos nas telas do cinema. Claro, ruim não poderia ser, a PIXAR possui um dos históricos mais invejáveis em produções audiovisuais, tendo em seu currículo animações que funcionam tão bem quanto a um longa em live-action, e na maioria das vezes, são mais interessantes e bem elaboradas que muita produção milionária hollywoodiana. São raros os casos em que a PIXAR deu aquela “pisadinha na bola”, ao meu ver, Vida de Inseto e Carros são os mais fracos do estúdio, enquanto todos os outros, especialmente Up e Wall-E, conseguem ser verdadeiras obras-primas.

Em Toy Story 3, Andy, com 17 anos, está a um passo da faculdade. É hora de deixar a infância de lado para se tornar um adulto, a difícil fase da vida cheia de decisões, desilusões e grandes realizações. É hora de se desprender de tudo aquilo que tanto lhe divertiu, que tanto lhe fez rir... Os brinquedos de Andy também precisam passar por mudanças, eles estão indo em direção à escuridão do esquecimento, num apertado e sinistro sótão. Parece até um dramalhão, e de fato é, mas tudo fica mais colorido e divertido quando Woody e sua turma vão parar acidentalmente na SunnySide”, uma creche comandada por um maquiavélico urso de pelúcia cor-de-rosa (com cheirinho de morango). Logo, os brinquedos percebem que ficar no sótão seria bem melhor do que viver dias de verdadeiro terror na nada brilhante SunnySide. É hora de fugir, mais uma vez...

Confesso que não me bastou assistir Toy Story 3 na estréia. Eu precisei assisti-lo uma segunda vez, uma semana após o filme entrar em cartaz. Se eu adorei na primeira, nem preciso dizer como foi a segunda! Senti a mesma tensão, a mesma emoção! É incrível, e ao mesmo tempo amedrontador, a forma como somos conduzimos ao longo do filme. É surreal, fantástico, inesquecível!! Este é um dos poucos filmes que fez meus olhos encherem-se de lágrimas, a fazer-me prender as mãos na cadeira do cinema e ficar ali, com os olhos arregalados, o coração à mil e o silêncio... O silêncio constrangedor à espera da surpresa, à espera de uma esperança, de uma ÚLTIMA esperança, pois se você quer realmente sentir desespero num filme, sugiro que assista o quanto antes Toy Story 3!

Os novos personagens são sempre caricatos e simpáticos, com destaque ao Ken e a Barbie, que roubam completamente as cenas. Impossível não rir com estes dois! Sem dúvida, é o casal mais divertido que já vi num filme. No geral, as piadas são muito bem arquitetadas e roubam de nós ao menos um discreto sorriso.

Toy Story 3 destaca-se, também, por ser um filme muito emotivo. Vai ser difícil segurar as lágrimas, e é quase impossível você não ouvir um comentário do tipo “você também chorou?” ao término da sessão. Tudo é tão crível, verdadeiro... humano! Sim, há momentos no filme em que simplesmente esquecemos de que é uma animação protagonizada por brinquedos. Os personagens, muito bem construídos, possuem a emoção de um ator e vivenciam dramas que facilmente podem ser aludidos às situações humanas. E, volto a falar, isto é INCRÍVEL! Talvez eu seja só um cinéfilo exagerado que tenha visto coisas demais nesse longa... Será? Bem, acho que terei de assistir Toy Story 3 uma terceira vez, então! (rs)

Não perca tempo e assista agora mesmo este que já pode ser considerado um dos melhores filmes da PIXAR e, com toda certeza, um dos melhores de 2010! E eu pensando que Como Treinar o Seu Dragão levaria o Oscar 2011...

Toy Story 3 é uma obra-prima!


COTAÇÂO:

terça-feira, 15 de junho de 2010

POEMA

MULETA

Me perguntaram até outro dia,
O que eu queria e o que alcanço
Nessa terra quase morta,
Onde cada passo não é um avanço.
Queria poder poetizar,
Contar casos e descasos,
Inventar, imaginar, pregar-me no encalço.
O sonhador, desprivilegiado!
Seu erro foi falar de amor,
O erro maior foi espalhar amor.

Dentro da torre Rapunzel joga as tranças,
E os espinhos criam vida no jardim.
Aqueles tiros, sangue no céu, queridas crianças,
Um a um, foram parar dentro de mim.
No sonhador que inventa seu caminho,
No desprivilegiado que vaga sem destino,
Os viajantes sobre o corcel alado,
Que voam e voam, sempre preocupados.
Seu erro foi falar de amor,
O erro maior foi espalhar amor.

Quisera eu ter desistido,
Aceitado a morte, o escuro e o vazio.
Quisera ele ter se perdido em sonhos,
Aceitado o medo, a solidão e o destino,
Pois quando se perde asas, não adianta querer voar,
Volta, volta, sonhador! Tá na hora de voltar!
Deixe ele, o desprivilegiado,
Fico eu, o sonhador.
Ele só queria falar de amor,
Mas eu queria espalhar o amor.

Eu e ele, lado a lado, tiro a tiro, pecado a pecado,
Pé com pé, mão com mão,
E o sonhador com o desprivilegiado.
Nega o doce, nega o sangue, nega tudo, até o pão!
Seu pecado foi crer,
Meu pecado foi descrer.
Ele só queria falar de amor,
Seu erro foi acreditar no amor.
Eu só queria espalhar o amor,
Meu erro maior foi acreditar no que sou.

(Davi Mello)

domingo, 11 de abril de 2010

TOP 5 FILMES

5 ANIMAÇÕES PARA SEREM ASSISTIDAS DEBAIXO DO COBERTOR

Hayao Miyazaki expõe toda a sua genialidade nesta belíssima animação vencedora do Oscar. Não há quem não se apaixone pela incrível história de Chihiro, uma garotinha medrosa que vê seus pais em porcos se transformarem por provarem da comida sagrada de uma cidade fantasma. A fim de salvá-los, Chihiro passará por uma aventura inesquecível repleta de referências míticas.
A Viagem de Chihiro é o tipo de filme que nos faz pensar, e, ao mesmo tempo que nos fascina, também nos perturba. Sem dúvida alguma, é a animação que mais me instigou e me impressionou!

Também de Hayao Miyazaki, esta outra animação japonesa possui uma história mais densa. Narra as desventuras de Sophie, uma jovem sem ambições que trabalha na chapelaria da família. Vítima de uma maldição da Bruxa do Nada, Sophie se transforma numa velha e, sem saber o que fazer, abandona o pouco que possuía para assim iniciar sua jornada em busca da salvação. O destino a leva até o mago Howl, o mestre de um castelo mágico que pode se mover, isso devido a magia de Calcifer, o demônio do fogo, um tipo de escravo. Calcifer faz um trato com Sophie: se ela quebrar a maldição que o aprisiona na lareira do castelo, ele a libertará do feitiço da Bruxa do Nada.
Um filme para ver e rever!

As Bicicletas de Belleville, animação francesa que foi indicada ao Oscar 2004, é dirigida por Sylvain Chomet, que já tinha recebido uma indicação na categoria de "Melhor curta de animação" em 1998. É um filme praticamente mudo. A falta de diálogos não prejudica o desenrolar desta criativa animação, pelo contrário, é só mais uma qualidade a ressaltar. A trama gira em torno de Champion, um solitário e triste garotinho que vive com a avó, a portuguesa Madame Souza. Depois das fracassadas tentativas da velhinha em querer agradá-lo, finalmente Madame Souza acerta, presenteando-o com uma bicicleta. Os anos se passam, Champion se torna um ótimo ciclista, pronto a participar do Tour de France. Porém, no dia da corrida, ele e outros ciclistas são sequestrados por mafiosos. Madame Souza e seu cão Bruno partem à procura do neto. No caminho deparam-se com as estranhas Trigêmeas de Belleville, três mulheres que foram cantoras de cabaret nos anos 30.
As Bicicletas de Belleville é uma animação de qualidade, cômica e com uma trilha-sonora divertidíssima! A música Belleville Rendez-Vous não vai sair de sua cabeça!

Não é de hoje que a Pixar nos impressiona com seus filmes extremamente bem feitos e inteligentes. Antes mesmo de Up ou Wall-E, a Pixar me emocionou com Monstros S.A.
A história dos monstros que trabalham recolhendo gritos de crianças encantou centenas de pessoas. É uma das animações da Pixar que mais gosto! É sempre bom rever Mike (Zoiodinho da mamãe), Suley e Boo, ainda mais com este friozinho gostoso que está fazendo!
Monstros S.A. é deliciosamente divertido e criativo. Não é só mais um filme focado no respeito ao diferente, é uma obra-prima da animação, digna de sua estatueta do Oscar!

Para finalizar, nada melhor do que se amontoar nos cobertores e assistir A Era do Gelo, animação co-dirigida pelo brasileiro Carlos Saldanha. Sucesso mundial, o primeiro filme da franquia é de chorar de rir! A trama é centralizada na jornada de Sid, o preguiça, Manny, o mamute e Diego, o tigre-dente-de-sabre, animais pré-históricos que decidem ajudar o pequeno bebê humano Rosham a achar a sua família. Contudo, quem certamente rouba todas as cenas é o azarado roedor Scrat, que faz de tudo - eu disse de TUDO - para proteger sua noz.
Infelizmente, as sequências de A Era do Gelo não possuem a mesma qualidade, mas vale a pena assisti-las, apenas por curiosidade, sem esperar muito, claro. (E, cá entre nós, ver Scrat se ferrando cena após cena é um "prato quente" para rir e se deliciar nesse friozinho!)

domingo, 7 de março de 2010

OSCAR 2010

A 82ª edição do Oscar será transmitada daqui a pouco na TNT e na Globo a partir das 22 hrs, e, assim como no ano anterior (e atendendo a pedidos de vários leitores) posto aqui a lista completa dos indicados juntamente aos meus palpites. Assisti grande parte dos filmes/curtas que concorrem e com os comentários da mídia e crítica, acho que já cheguei numa conclusão.

Legenda:

Grandes chances
Uma segunda opção

- Melhor filme
Avatar
Um Sonho Possível
Distrito 9
Educação
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios (meu favorito)
Preciosa
Um Homem Sério
Up – Altas aventuras
Amor Sem Escalas

- Melhor direção
James Cameron, Avatar
Kathryn Bigelow, Guerra ao Terror
Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios (meu favorito)
Lee Daniels, Preciosa
Jason Reitman, Amor Sem Escalas

- Melhor ator
Jeff Bridges, Coração Louco (meu favorito)
George Clooney, Amor Sem Escalas
Colin Firth, A Single Man
Morgan Freeman, Invictus
Jeremy Renner, Guerra ao Terror

- Melhor ator coadjuvante
Matt Damon, Invictus
Woody Harrelson, The Messenger
Christopher Plummer, The Last Station
Stanley Tucci, Um Olhar do Paraíso
Christoph Waltz, Bastardos Inglórios (meu favorito)

- Melhor atriz
Sandra Bullock, Um Sonho Possível
Helen Mirren, The Last Station
Carey Mulligan, Educação
Gabourey Sidibe, Preciosa
Meryl Streep, Julie & Julia (meu favorito)

- Melhor atriz coadjuvante
Penélope Cruz, Nine
Vera Farmiga, Amor Sem Escalas
Maggie Gyllenhaal, Coração Louco
Anna Kendrick, Amor Sem Escalas (meu favorito)
Mo’Nique, Preciosa

- Melhor animação
Coraline
O Fantástico Sr. Raposo
A Princesa e o Sapo
O Segredo de Kells
Up – Altas Aventuras (meu favorito)

- Melhor filme estrangeiro
Ajami
El Secreto de sus Ojos (meu favorito)
The Milk of Sorrow
Un Prophète
A Fita Branca

- Melhor direção de arte
Avatar
O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (meu favorito)
Nine
Sherlock Holmes
The Young Victoria

- Melhor fotografia
Avatar (meu favorito)
Harry Potter e o Enigma do Príncipe
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
A Fita Branca

- Melhor figurino
Bright Star
Coco Antes de Chanel
O Mundo Imaginário do Dr. Parnassus (meu favorito)
Nine
The Young Victoria

- Melhor edição
Avatar
Distrito 9 (meu favorito)
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Preciosa

- Melhor maquiagem
Il Divo
Star Trek (meu favorito)
The Young Victoria

- Melhor trilha sonora
Avatar
O Fantástico Sr. Raposo
Guerra ao Terror
Sherlock Holmes
Up – Altas Aventuras (meu favorito)

- Melhor canção
Almost there, A Princesa e o Sapo
Down in New Orleans, A Princesa e o Sapo
Loin de Paname, Paris 36
Take it all, Nine
The weary kind, Crazy Heart (meu favorito)

- Melhor roteiro original
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios (meu favorito)
The Messenger
Um Homem Sério
Up – Altas Aventuras

- Melhor roteiro adaptado
Distrito 9
Educação
In The Loop
Preciosa
Amor Sem Escalas (meu favorito)

- Melhores efeitos visuais
Avatar (meu favorito)
Distrito 9
Star trek

- Melhor som
Avatar (meu favorito)
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Star Trek
Transformers: A Vingança dos Derrotados

- Melhor edição de som
Avatar (meu favorito)
Guerra ao Terror
Bastardos Inglórios
Star trek
Up – Altas Aventuras

- Melhor documentário (não assisti as produções indicadas)
Burma VJ
The Cove
Food, Inc.
The Most Dangerous Man in America: Daniel Ellsberg and the Pentagon Papers
Which Way Home

- Melhor documentário em curta-metragem (não assisti as produções indicadas)
China’s Unnatural Disaster: The Tears of Sichuan Province
The Last Campaign of Governor Booth Gardner
The Last Truck: Closing of a GM Plant
Music by Prudence
Rabbit à la Berlin

- Melhor curta-metragem (não assisti as produções indicadas)
The Door
Instead of Abracadabra
Kavi
Miracle Fish
The New Tenants

- Melhor curta-metragem de animação
French Roast (meu favorito)
Granny O’Grimm’s Sleeping Beauty
The Lady and Reaper
Logorama
A Matter of Loaf and Death

sábado, 20 de fevereiro de 2010

CONTO

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PIO
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Sonhou com rosas, violetas e um beija-flor a voar.

Acordou e descobriu que era a primeira vez que sonhava.

Ele gostou.

- O que foi, pardal? Parece até que viu passarinho azul! – disse o sabiá.

- Você já imaginou coisas enquanto dorme?

- Tu tá esquisito.

- Nunca?

- Eu não. Como é que os humanos os chamam, mesmo?

- Sonhos.

- Ah, é verdade! Quando estou empoleirado em suas janelas, no momento em que o sol nasce e os primeiros raios adentram seus quartos, gosto de vê-los sonhar. É divertido.

- E como é? – quis saber o pardal.

- Eles voam de verdade, como nós.

- Sério? Eu também voava enquanto sonhava?

- Não.

- Não?

- Claro que não! Pássaros não sonham. Tu tá mentindo.

- Voei ou não voei? – insistiu a ave.

- Ah, eu não sei! Não estava prestando atenção... Mas se você realmente sonhou, como é que ele era?

- Tinha um lindo campo, flores para todos os lados, borboletas perambulavam entre as árvores e um beija-flor voava à procura de alimento.

O sabiá o fitou com desdém e voou.

Mesmo assim, o pardal, ainda entusiasmado com o que lhe tinha acontecido, decidiu ir em busca de seu sonho. Estava farto daquele céu poluído, de todas as casas e arranha-céus e, principalmente, dos carros que faziam tanto barulho!
E assim iniciou sua jornada ao encontro do paraíso.


- Olha, mãe! Olha! Vem cá ver! – gritou a menina, ainda de pijama.

Os pais, que acordaram assustados, já estavam no quarto da filha querendo saber o motivo para toda aquela folia.

- Tem um pássaro no meu quarto! Pega, pega!

O pai olhou para cima, viu um pardal se debatendo no teto, desesperado.

- Xi, é verdade!

- Pobrezinho. – disse a mãe. – Vamos ajudá-lo a sair daí.

- Filha, abra a janela. – pediu o pai.

- Não quero.

- Como assim, não quer?

- Oras, eu mesma a fechei quando ele entrou. Quero o passarinho pra mim.

O pai e a mãe se entreolharam, emburrados.

- Vamos, papai, pega ele, vai! – implorava a filha, os olhos brilhando.

O pai subiu na cama da menina, fez uma concha com as mãos e pegou o pardal com muito cuidado. A pobre ave tremia, amedrontada.

- Abra essa janela, filha. Ele precisa ir.

- Não quero, não quero! – gritou a menina.

A mãe então decidiu abri-la. Depois, segurou a filha, que em prantos, tentava impedir o pai de abandonar o pássaro.

Mas era tarde demais.

Assim que a janela se abriu, o pardal deixou as mãos do homem e voltou a voar livremente, contudo, um pouco atordoado.

Viu algo passar por ele, mas não pode desviar. O pássaro foi atingido na asa por uma pequena pedra, proveniente de um estilingue dos moleques que brincavam no parque.

- Eu peguei um! Eu peguei um! – vociferou um dos garotos.

- Deixe-me ver! – disse o outro.

Ambos aproximaram-se do pardal. Largado no gramado, piando inocentemente, a ave implorava por socorro. Estava ferida, sua asa direita sangrava.

- Olha o que você fez! – ralhou o garoto mais velho. – Havíamos combinando que só valiam pombas, não é mesmo? Você pegou um pardal. Pobre bichinho.

- Minha mãe pode cuidar dele.

- Pode?

- Ahã!

- Pobrezinho. – lamentou o menino, entregando o pássaro ao outro.

Uma moça, que até então lia num banco, fechou seu livro e acenou para eles.

- A tia tá te chamando.

- É melhor eu ir, então.

- Volta no sábado que vem?

- Sábado que vem, não. Vai lá em casa você!

- Tá bom.

O menino correu para sua mãe, com cautela para não machucar ainda mais a ave.

- Tchau tia! – acenou o mais velho, que ficou por lá mesmo.


- Mas, Josmar, você já tem muitos animais!

- Mãe, ele está doente, olha!

- Agora não posso ver nada, querido. Estou dirigindo.

- Coitado dele.

- Ninguém mandou atirar pedrinhas com seu estilingue.

- Mas ele quebrou a asinha. Você pode curá-la.

- Ah, Josmar... não sei!

- Vai, mãe! Por favor.

- Tá bem, tá bem! – ela deu uma rápida olhada para trás, aproveitando o sinal vermelho. – Cuidado com ele! Fica segurando ele, bem forte, até chegarmos.

- “Podexá”! Te amo, mãe!


***


Rosas, violetas e um beijo-flor a voar. Borboletas brincando na imensidão celeste e árvores brotando do campo. Tinha encontrado seu paraíso! Contudo, trancafiado numa gaiola, o pardal não podia desfrutar daquela linda paisagem interiorana.

Então fechou os olhos, chorou...

E só lhe restou sonhar...


"Dedicado a minha amiga e leitora mais assídua.

Dandra, este é para você! Obrigado por tudo!"


(Davi Mello)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CONTO

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OLHO NO OLHO
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Em todas as manhãs ela leva o café até minha cama, massageia os meus pés e escova os meus dentes. Ela sorri enquanto tira o meu pijama, sorri quando passa o desodorante em minhas axilas e continua sorrindo ao apertar o nó de minha gravata.

Ela é a mulher perfeita.

É linda, não é de falar muito e, quando nervosa, não discute por nada desse mundo, só pisca os olhos constantemente, como se aquilo lhe ajudasse a conter os nervos.

Ela se chama Rosie. É a minha servente, minha cozinheira e minha faxineira. Só não é a minha amante. Acho que não faço o tipo dela... Uma pena! Ela é o meu tipo.

Demorei um pouco para descobrir que estava apaixonado por Rosie. Quando chegou em casa, ela simplesmente foi para a cozinha e preparou a janta.

“Está gostoso?”, me perguntou.

Um pouco nervoso com o cansativo dia de trabalho, nada disse, apenas afirmei com a cabeça.

“Quer mais?”

“Não, obrigado”, respondi.

Então saí. Deixei-a ali entre as louças sujas e a imundice que só vemos nas cozinhas de homens solteiros.

Ao acordar, parecia que eu estava em outra casa. Não via o lixo no meu quarto, ou as roupas espalhadas pelo carpete empoeirado. Não encontrei as latas de cervejas que completavam aniversário no canto da sala, ou a teia da aranha Priscila. É! Quando você não tem ninguém, acaba colocando nomes até em aranhas, e assim, pode conversar com elas mais facilmente.

“Cadê as minhas coisas?”, quis saber, um tanto exaltado.

Pela primeira vez, seus cílios gigantes agitaram-se instantaneamente, trêmulos, nervosos como asas prestes a alcançar voo.

“Eu guardei”, disse ela. “Lavei e passei suas roupas, costurei as rasgadas e fiz panos de chão com as peças velhas.”

“E... cadê todo o lixo?”

“Eu reciclei.”

“Reciclou o meu lixo?”

“Sim”, disse-me sorridente.

“Hm... tá bem. O café está pronto?”

“Sim, senhor”, respondeu ela com aquela sua voz potente e incrivelmente feminina.

“Tá.”

Surpreso, e angustiado, dirigi-me a cozinha. Nada de pratos sujos, nada de restos de molho no piso branco, nada das manchas de óleo no fogão. Ou Rosie era macumbeira, ou uma ajudante muito eficaz.

Ela afofou a cadeira para mim e pediu que eu sentasse ali. A sensação foi incrível! A cadeira não mais estava bamba!

“Ehr... Rosie”, lembro-me de ter dito, “por acaso você fez aquelas panquecas que tanto... tanto...”

Sequer consegui terminar a frase. À minha frente, panquecas fumegavam num prato decorado com rodelas de tomate e alface.

“Chá, suco ou café?”

Tossi.

“Suco, pode ser?”

“E quais são as opções?”, zombei.

“Pêra, uva, abacaxi, limão, acerola, guaraná, pêssego e manga. Desculpe-me se esqueci de comprar os outros sabores, mas é que, com o dinheiro que encontrei perdido nos vãos do sofá, era o máximo que pude comprar.”

“Não, não... Ehr, está ótimo! Pode pôr qualquer coisa.”

Ainda transtornado, fui trabalhar. Ser subgerente de banco é uma bosta. O salário não é lá essas coisas, afora que as oito horas que passamos ali são muito estressantes. Pelo menos com a grana que ajuntei nos últimos meses, consegui pagar Rosie.

E assim os dias foram se passando. Rosie, sempre muito calada, fazia tudo o que eu queria e aceitava tudo o que eu sugeria. Era muito melhor do que o Gildo, meu poodle que morreu há três anos atrás. Gildo bateu as botas por ter ingerido leite estragado, por esta razão, nunca mais deixei o leite azedar na geladeira, com medo de Rosie bebê-lo e também morrer. Eu tive medo de perdê-la, até sonhava com isso. Quem faria as massagens nos meus pés? Quem me levaria o café da manhã na cama? Quem aceitaria ouvir todas as minhas lamentações sem dizer absolutamente nada?

É... Rosie era a mulher perfeita!

Depois de um mês que ela apareceu em minha vida, percebi que estava amando-a, mas amando-a de verdade, um amor superior ao que sentia por Gildo e pelo dinheiro. Descobri isso no começo da semana, no momento em que eu comia a macarronada tradicional de domingo. Rosie lavava a louça, se mexia toda, o quadril indo de lado a lado. Aquilo mexeu comigo. Deixei até de mastigar para apreciar melhor aquela visão. Suas curvas à mostra na mini-saia justa, a camiseta pólo amarela combinando perfeitamente com a pele rosada... E o decote! Ah, o decote! Eu ficava imaginando o que encontraria se seguisse a linha...

“Precisa de algo, senhor?”, perguntou-me ela.

“Não, não”, respondi. Percebi meu rosto se enrubescendo, e ela também deve ter notado isso, pois sorriu timidamente.

“Estou cansada. Preciso carregar minhas energias.”

“Você quer que eu lhe ajude?”

“Não, senhor. Não é necessário.”

“Tá...”

“Quer mais alguma coisa, antes de se deitar?”

Sim, é claro que eu queria! Queria imensamente tê-la em meus braços, queria poder beijá-la e chamá-la de meu amor!

“Não, Rosie, obrigado. Pode descansar.”

Ela sorriu para mim mais uma vez. Eu retribui o sorriso e pronto.

Pronto.

Estávamos sozinhos, eu a minha macarrona, e logo, só sobrara eu.
Dois fios de lágrimas formaram-se no canto de meus olhos e desceu para meus lábios tristes. Estavam salgadas.

Deixei o prato sujo na mesa, engoli o choro e fui dormir.


Feriado de carnaval era sempre uma bosta. Pior ainda do que ser um bosta de subgerente de banco. Contudo, se existia uma coisa boa nisso tudo era poder ficar em casa durante três dias sem fazer nada, nada, nada! Segunda, terça e quarta sem fazer nada! Não precisava nem me levantar da cama. Poderia eu aproveitar Rosie durante estes dias!

Mas era feriado... Rosie merecia uma folga. Coitada, trabalhava tanto!

“Rosie, querida”, disse a ela, “você não precisa passar, lavar ou cozinhar durante o carnaval.”

“Por que?”

“Oras, você trabalha demais.”

“Mas é o seu direito.”

“Mas também é o seu direito.”

“Não me importo.”

“Não se importa?”, perguntou, os olhos se abrindo e se fechando milhões de vezes por segundo. “O que vai fazer, então?”

“Tire uma folga.”

“Folga? Para onde vou? Eu só tenho você!”

Olhei bem em seus olhos, levantei-me da cama e toquei em seus braços. Sua pele era macia, parecia borracha.

“Que bom!”, disse eu, muito sorridente.

Ela fechou os olhos, eu também fechei. Ela aproximou seus lábios dos meus, mas eu recuei.

“O quê?”, Rosie não entendia o que estava havendo.

“Não sei se devo, não sei se é permitido.”

“Ninguém vai saber.”

“Não?”

“Não.”

“Que bom!”

“É... que bom!”

“Eu te amo, Rosie.”

Rosie sorriu carinhosamente e me beijou.


No outro dia, acordei com Rosie caída no chão. Chamava por seu nome, mas ela não me ouvia. Será que caiu da cama? Será que se machucou?

Rapidamente, levei-a para a sala, pluguei uma ponta do fio na sua nuca, coloquei a outra ponta na tomada, apertei o seu nariz e pronto.

Pronto.

Rosie já sorria para mim novamente. Os olhos tão similares aos olhos d’um humano.

Sempre linda, ela pegou em minha mão e alargou ainda mais o seu sorriso.

Rosie, a mulher perfeita!

E pensar que eu a comprei numa liquidação! Última peça, pronta para ser recolhida das lojas por ser de uma versão ultrapassada. Gostei dela assim que a vi na vitrine entre os outros robôs. Guardei meu salário por três meses só para comprá-la!

“Quer alguma coisa?”, perguntou-me, como sempre.

“Sim, Rosie, eu quero.”

E então a beijei.

(Davi Mello)

sábado, 26 de dezembro de 2009

CONTO

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TEM UM CADÁVER NA MINHA BANHEIRA!
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Capítulo 1

Sou Fabio Ferreira e tem um cadáver no meu porta-malas.

O encontrei na banheira, há alguns minutos atrás.

É alto, gordo e calvo. Veste uma calça social preta e uma camisa branca, ou melhor, era branca, mas está tomada por seu sangue.

Não há documentos que o identifique, apenas um celular com uma lista de contatos muito pequena.

Eu estou nessa lista, mas o mais estranho é que não conheço o falecido...

... E nem sei como ele foi parar ali!

Na verdade, neste exato momento, eu pouco sei sobre qualquer coisa. Não consigo me recordar de minha jornada sobre a Terra. A última lembrança que tenho é de ter visto o corpo e o vermelho de seu sangue por todo canto do meu banheiro.

Agora, tem um cadáver em meu porta-malas... e uma bela garota adormece no banco ao lado do veículo do qual dirijo. Ela diz que se chama Amelie, que somos amigos e que mora no apartamento ao lado do meu, no número 118.

Também não me lembro dela, mas, se Amelie me emprestou o carro, então deve ser amiga, mesmo!

“Já chegamos?”, ela me diz, sonolenta.

“Eu nem sei para onde estamos indo!”, respondo, com as mãos trêmulas apoiadas ao volante. Decido, então, estacionar o Ford Maverick vermelho próximo a um posto de gasolina abandonado.

“Se quer se livrar do corpo, é melhor ser mais rápido”, diz Amelie, pela primeira vez, abrindo seus olhos. Ela boceja e sorri para mim. Beija-me o rosto e encosta a cabeça no meu ombro.

Ela alisa o meu ombro por alguns segundos... e para subitamente! Fitando bem no fundo de meus olhos, Amelie retira o cinto do meu banco, e o seu logo em seguida. Ela fecha o vidro com dificuldade e abandona o carro em silêncio, fugindo então do calor de meu corpo, abandonando minhas fantasias...

Eu também desço do automóvel e aproximo-me dela. Amelie traga a fumaça de um cigarro e a expele pela boca e pelo nariz.

“Você quer um?”, me pergunta.

“Não, obrigado.”, respondo, irritado com a fumaça.

“Está bem, então.” Amelie lança a bituca de cigarro no chão e esfrega a sola de seu sapato sobre ela, calmamente, como se estivesse amassando uma barata e pudesse ouvir seu casco sendo triturado, estralando embaixo de seu calcanhar. “Aonde vamos enterrá-lo?”

Dando de ombros, abro o porta-malas do Maverick. O corpo continua ali, intacto, sangrento, sem vida...

Pressinto um desmaio, mas percebo que não basta de um súbito enjôo.

Fecho o porta-malas novamente.

Transpiro muito, o suor escorre por minha pálida tez. Amelie aproxima-se de mim e acaricia o meu ombro, mais uma vez.

“Você não o conhece, mesmo?”, pergunta-me, entristecida.

“Não”, respondo, convicto. “Nunca o vi”.

“E eu, Fabio?”, os olhos azuis de Amelie se encharcam numa fração de segundo, “Também não me conhece?”

Relutante, decido lhe dizer a verdade.

“Não, Amelie. Eu... eu não a conheço, ou quem sabe, apenas tenha me esquecido de você.”

Transtornada, ela se afasta de mim. Engole o choro, seca as poucas lágrimas e acende outro cigarro.

“Vou tentar lhe ajudar, Fabio. Vou tentar lhe ajudar a se lembrar do que pode lhe ter acontecido.”

Amelie se senta no capô no carro e pede para que eu me sente ao seu lado. Nós dois, calados, observamos o céu alaranjado e o imponente e brilhante sol desvanecendo pouco a pouco no horizonte.

“O que você fez hoje?”, pergunta ela, quebrando o silêncio.

Esforço-me ao máximo, mas não me recordo de muita coisa.

“Acordei e tomei um copo de suco de laranja...”

“E o que mais?”

“Hum... Calcei meu par de tênis e fui até a sala assistir TV.”, penso por mais alguns instantes. “Não, não! Eu acordei, tomei um copo de suco de laranja, calcei meu par de tênis e desliguei a TV. Ela ficou ligada a noite toda.”

“E o que mais?”, repete Amelie.

Eu nunca me senti assim antes. Eu sei o que aconteceu, mas não na ordem certa. Vejo vários flashs de minhas ações cotidianas, mas são embaraçados, confusos...

“Eu peguei minha mochila e sai.”

“Saiu, assim... do nada? Desligou a TV, não escovou os dentes, tampouco trocou de roupa? Saiu... com tênis e pijama?”

“Não, é claro que não! Eu devo ter feito isso...”, digo a ela, enquanto, disfarçadamente, tento sentir o meu hálito com ajuda de minha mão. “Sim, eu escovei os dentes... E não precisei me trocar, pois dormi com esta roupa na noite anterior. Estava muito cansado e não tive ânimo de vestir meu pijama.”

“Hum.” Amelie expele um pouco de fumaça e sorri. “Muito bom, Fabio. Estamos indo bem. Agora me diga para onde estava indo.”

“Eu... eu acho que fui colocar o lixo para fora.”

“Então você acordou, escovou os dentes, tomou um copo de suco de laranja, calçou um par de tênis, desligou a TV, recolheu o lixo e, aí sim, deixou o apartamento.”

“Sim!”, exclamo, satisfeito comigo mesmo. “Recolhi as latas de cerveja da noite anterior, as coloquei numa sacola plástica e as desci.”

“Então você bebeu muito ontem? Quantas latas eram? Umas cinco, seis?”

“Não eram minhas. Eu não bebo... Eram... eram...”

O pôr-do-sol me ajuda e recordar dos detalhes, de uma certa fisionomia masculina, de um nome...

“Eram do Oscar, um colega da faculdade. Ele passou a noite comigo. Comemos pizza, assistimos a um filme de terror e ele bebeu um pouco.”

Amelie encara-me pensativa.

“Tem certeza de que Oscar não é o corpo que está dentro do porta-malas?”

“Mas é claro! Oscar não é velho e pançudo. É um moço até que bonitão.”

“Continue, Fabio, continue.”

“Ehr... Quando deixei o meu apartamento, a senhora... a senhora... a senhora Lúcia? Isso, a senhora Lúcia! Ela veio me dar um recado.”

“Que tipo de recado? Aposto que ela deve estar envolvida no assassinato, querido.”

“Não, ela é fraca, velha e mais míope do que uma fuinha! Não faz mal a uma mosca... Ela só veio me dizer que um tal de Doutor Azevedo havia me ligado ontem de tarde. Disse que era importante, que ele precisava me ver.”

“E como ela sabia disso?”

“Eu não estava em casa, provavelmente não tinha chegado do trabalho. Lúcia tem a chave do meu apartamento, foi buscar emprestado dois ovos para fazer um bolo, aí tocou o telefone... Na verdade, o apartamento é dela, eu pago aluguel a ela há uns... uns três anos! Devia saber disso, se diz ser minha amiga...”

Amelie muda de semblante subitamente. Joga a bituca de cigarro e lança-me um olhar indecifrável.

“Nós não perdemos tempo conversando sobre essas coisas inúteis, Fabinho... A gente só faz coisas... divertidas!”, disse-me, antes de beijar meus lábios por dois inesquecíveis segundos. “Enquanto cavamos, você me conta o resto.”

Capítulo 2

Amelie não perde sua feminilidade e formosura até mesmo quando está com a mão na massa, ou melhor, na pá! Cava com ira, sentindo o peso do artefato obstruir as camadas da terra. Sua sede em ver ali o corpo do desconhecido só aumenta a cada minuto. Ela parece se esforçar mais do que eu, até transpira mais do que minha pessoa. Os negros cabelos ondulados, presos a um coque, se agitam a cada movimento, e alguns fios insistem cair por seus olhos, por mais que ela os impeça constantemente.

“Então você não trabalhou hoje?”

“Não. E... infelizmente... não consigo... me lembrar... o por quê disso!”, respondo-lhe, ofegante.

Ela finca a lâmina na terra e se apóia no cabo da pá. Suspira, aliviada, por poder descansar um pouco. Sempre muito insistente, ela joga as madeixas teimosas para o lado, estas, se colam em sua tez pelo suor, provavelmente não mais lhe irritarão.

“Você tem certeza?”

Decido descansar um pouco, também.

“Sim. Só me lembro de estar no meu apartamento, há uma hora e meia atrás, fechando o meu guarda-roupa e... e...”

“Vamos, Fabio! Tente se lembrar!”

“Puta merda, Amelie! Tem um cadáver no meu guarda-roupa!”

Amelie, nervosa, se põe a cavar, com agressividade.

“É Oscar... Meu Deus, Amelie! É Oscar! Mataram o Oscar!”

Lembro-me, abruptamente, de estar com algo importante em um dos bolsos de minha calça. Afago o direito, percorro minha mão pelo esquerdo... Está ali! Dobrado em várias partes, um pedacinho de papel. Desdobro-o com cautela para não rasgá-lo, o suor de minhas mãos me atrapalham um pouco.

“O que tem aí?”, pergunta-me Amelie.

“É um número de telefone. Sei que é importante, eu pressinto isso... Mas não sei de quem é!”

Amelie limpa o suor da testa com o braço, abana um pouco o seu rosto e se dirige até o automóvel.

“Me dá uma mãozinha?”

Juntos, retiramos o corpo do falecido de dentro do porta-malas. Ele já começa a cheirar mal e parece que sua pele está desbotando. Ele é pesado, muito pesado! Pesa mais de cem quilos, certeza!

Ofegantes, conduzimos o corpo até a cova que lhe espera. Dando-lhe impulso, o morto é jogado ali dentro e, certamente, alguns ossos devem ter sido fraturados com o impacto.

Amelie começa a tampar a cova com a terra recém tirada. Ela está cansada, assustada, triste e, maiormente, muito preocupada.

Volto ao Maverick 77, abro o porta-luvas e pego o celular de Amelie. Disco aquele número anotado no papel, mas os créditos não são suficientes para completar a ligação. Arrisco, então, uma ligação a cobrar.

9090 679-1201

Saio do carro, com o celular no ouvido.

“Só está chamando!”, digo a Amelie. “Só chama, ninguém atende!”

Amelie não mais está cavando. Aflita, ela aponta para a cova... Aproximo-me dela, baixo os meus olhos e vejo uma pálida luz azul no meio da terra. Escuto, de longe, uma musiquinha chata, a mesma música deprimente do caminhão de gás.

“Fabio, para quem você está ligando?”, pergunta-me Amelie, a voz embargada.

Agora que os fragmentos do passado finalmente começam a se ajuntar, percebo que, por ora, o melhor é ocultar a verdade.

“Fabio, para quem você está ligando?”, ela pergunta mais uma vez.

“É o telefone do Doutor Azevedo. A Lúcia me passou pela manhã.”

“Fabio, o que você fez?”

“Eu...”

“Fabio, tem um morto em seu guarda-roupa e outro embaixo de nosso nariz! O que você fez?”

Lembrei da briga que tive com Oscar, que, quando bêbado, ficava super violento. Lembrei que, em um de seus ataques de loucura, na noite anterior, senti-me obrigado a asfixiá-lo com uma gravata. Arrependido, escondi o seu corpo no meu guarda-roupa.

Lembrei de ter deixado o meu apartamento pela manhã, de tentar fugir do que fiz, mas a senhora Lúcia atrapalhou os meus planos, dando-me o recado e o número do Doutor Azevedo.

Lembrei de encontrar o próprio Doutor Azevedo enquanto descia as escadas para o andar térreo, assim como lembrei de tê-lo convidado para tomar uma xícara de café em minha casa, já que ele queria conversar comigo.

Lembrei, e digo isso com pesar, de que Doutor Azevedo, meu psiquiatra, revelou-me que sofro de transtorno de personalidade, que sou bipolar.

Ele é um mentiroso!

Lembrei de que, por descuido meu, ele adentrou o meu quarto e descobriu o corpo...

Lembrei da cena do Doutor Azevedo tentando me impedir de matá-lo com a minha lâmina-de-barbear... Pobre Doutor Azevedo! Tanto lutou que acabou escorregando no banheiro molhado e caiu de cabeça na banheira de porcelana.

Por fim, lembrei de que, antes de desfalecer na banheira, Doutor Azevedo me empurrou com extrema força, fazendo com que eu viesse a cair desconfortavelmente no ladrilho úmido.

E então, lembrei-me que acordei sem lembrar de nada... e que pedi ajuda para a primeira pessoa que me pareceu: Amelie.

“Fabio, o que você fez?”, berrou Amelie.

Nada disse. Minha atenção estava direcionada a terra, que se mexia sutilmente...

“Fabio, você matou este homem? Por quê nunca me disse nada sobre este homem?”

“Nós não perdemos tempo conversando sobre coisas inúteis, Amelinha... A gente só faz coisas... divertidas!”, disse, com um sorriso pronto a ser formado em meus lábios.

E então, como nos filmes de terror, uma mão potente, branca e com poucas unhas ergueu-se da terra, segurando um celular velho, daqueles que chamados de “tijolão”.

“Será que o enterrei ainda vivo?”, pensei comigo mesmo.

E, enquanto tentava chegar numa conclusão sensata, outra mão surgiu do solo e, logo, Doutor Azevedo, sangrando e cheirando à carne podre, renasceu das trevas infinitas...

Eu me lembrei...

... Me lembrei de que tinha pernas e que precisaria delas para correr!

Mas antes, tratei de pegar uma pá, caso fosse preciso exterminar algum zumbi.

Corri, corri e corri. Olhei para trás, Doutor Azevedo, cambaleando, abraçou a minha namorada, mas, quem sabe, poderia estar devorando-a!

Como pude me esquecer de Amelie? Minha bela Amelie? Eu tinha de voltar para lá!

“Você consegue, Fabio!”, pensei. “Você consegue!”

Segurei o cabo da pá com as duas mãos; se eu colocasse ali mais um pouco de força, certamente o mesmo se quebraria em duas partes...

“Você consegue!”

Epílogo

Sou Fabio Ferreira e estou dirigindo um Ford Maverick 77 a toda velocidade, mesmo sem saber o porquê.

Minha cabeça dói, meus braços estão arranhados... Há sangue espalhado por todo o estofamento do carro, há sangue em minhas mãos, há sangue em minha roupa... E o pior de tudo, eu não me lembro do que aconteceu.

Só sei que meu nome é Fabio Ferreira...

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(Davi Mello)

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

ODD THOMAS

Dean Koontz nos cativa de uma forma interessante no decorrer das 447 páginas de "Odd Thomas", um romance sobrenatural criativo, ousado, intrigante e, sem dúvida alguma, inesquecível! "Odd Thomas" é brilhantemente bem escrito, com descrições rápidas, precisas e belas, capazes de estimular nossa capacidade de criar cena por cena, como se fossemos algo além de um mero espectador.
O livro, narrado em primeira pessoa, relata os mistérios que envolvem o jovem Odd Thomas, um rapaz aparentemente comum que leva uma vida aparentemente normal como cozinheiro na remota cidade californiana de Pico Mundo. Contudo, Odd Thomas está longe de ser só mais um jovem sonhador e apaixonado; Odd Thomas consegue ver e interagir com mortos, quiçá um dom, talvez uma terrível maldição...
Quando um estranho rodeado por bodachs - entidades demoníacas semelhantes a sombras que só podem ser vistas por possuidores desse dote incomum - se muda para Pico Mundo, Odd Thomas sabe que algo ruim está para acontecer. Contando ainda com a ajuda de um sexto sentido íncrivel, de sua namorada Stormy e do chefe de polícia Porter, o corajoso jovem se aventura em um caso bizarro, misterioso e demoníaco que coloca a vida de centenas de pessoas em risco.
Enquanto percorre Pico Mundo à procura de pistas, Odd Thomas conta ao leitor coisas de seu passado, expõe seus pensamentos, medos e desejos, que envolvem desde problemas familiares até a sexualidade. Com isso, a história se torna ainda mais crível, acabamos nos identificado com o personagem, e isso mostra que Odd Thomas não é tão diferente de nós.
Dean Koontz criou um universo sombrio, cruel e, por vezes, cômico; um universo fantástico que nos instiga a querer "desbravá-lo" a cada virar de páginas, páginas estas que sempre são repletas de muita ação, terror e surpresas... Tenho certeza de que esse livro fascinará a todos, amantes, ou não, de romances sobrenaturais.


COTAÇÂO: